<body><script type="text/javascript"> function setAttributeOnload(object, attribute, val) { if(window.addEventListener) { window.addEventListener('load', function(){ object[attribute] = val; }, false); } else { window.attachEvent('onload', function(){ object[attribute] = val; }); } } </script> <div id="navbar-iframe-container"></div> <script type="text/javascript" src="https://apis.google.com/js/plusone.js"></script> <script type="text/javascript"> gapi.load("gapi.iframes:gapi.iframes.style.bubble", function() { if (gapi.iframes && gapi.iframes.getContext) { gapi.iframes.getContext().openChild({ url: 'https://www.blogger.com/navbar.g?targetBlogID\0755491678\46blogName\75Meridiano\46publishMode\75PUBLISH_MODE_BLOGSPOT\46navbarType\75BLUE\46layoutType\75CLASSIC\46searchRoot\75http://meridiano.blogspot.com/search\46blogLocale\75pt_PT\46v\0752\46homepageUrl\75http://meridiano.blogspot.com/\46vt\0757187404747402604590', where: document.getElementById("navbar-iframe-container"), id: "navbar-iframe" }); } }); </script>

Da série Palácios de Veneza

10.05.2003 by alberto cinza

Domenico Bembo, o corcunda, conformara-se há muito com o seu pequeno quarto sem janelas nas traseiras do palácio. Confinava com os andares superiores e com os equívocos ruídos dos quartos das criadas, cujas camas rangiam sobre o tecto do seu quarto. Das criadas, Domenico sabia pouco. Quase todas se horrorizavam quando cruzavam a sua lúgubre silhueta nos poucos corredores em que lhe era permitido circular livremente. Das outras mulheres, sabia ainda menos, já que lhe era expressamente proibido comparecer às recepções que, periodicamente, tinham lugar nas salas nobres do palácio. E quanto às janelas, uma vez por mês, era-lhe permitido assomar a elas, devidamente resguardado pelas cortinas e aspirar o odor fétido que se desprendia dos canais. Parecia-lhe o mais maravilhoso odor que as suas narinas poderiam aspirar.
Domenico Bembo, chamado "o corcunda", não conhecia árvores, o sopro do vento nas mesmas, a sensação de estar sentado num jardim e ao vento vir juntar-se a chuva, que lentamente encharca os rostos, o aroma das maçãs frescas ou o odor do corpo de uma mulher. Domenico não conhecia os pássaros nem sabia ler. Conhecia o seu quarto e a deformidade do seu corpo. Por cima da sua cama, alguém emoldurara e pendurara uma imagem do arcanjo Gabriel e, por vezes, ele deitava-se atravessado sobre a cama, fixava o olhar na imagem e sentia a corcunda latejar, na certeza que isso que sentia eram as suas próprias asas que, escondidas na corcunda, começavam a agitar-se, preparando-se para furar a dócil barreira de pele que as separava do ar. Atravessado na sua cama, Domenico Bembo, chamado "o corcunda" (e tantos outros nomes mais, cada um mais cruel que o anterior), fixava os seus olhos inchados na imagem do Arcanjo e sonhava.

Da série (very) short stories

10.03.2003 by alberto cinza

Numa casa emprestada.
Prometeram-me que os chineses da janela em frente passavam noites inteiras em claro, a jogar gamão. Já lá vão duas noites e, até agora, nada. Talvez seja da chuva, ouço dizerem-me. Mas que relação pode existir, pergunto eu, entre a chuva, o jogo de gamão e uma quantidade indeterminada de chineses a viver na mesma casa?

Da série Filatelia, parte 2

9.04.2003 by alberto cinza

As cartas de Maria não se resumem a uma fórmula, mas são anti-metódicas, desmedidas declarações de amor ao que a salva de morrer afogada por tudo aquilo que Maria chama as inutilidades. São torrenciais, quase insanas na sua ambição de tudo querer abarcar, perdidas no infindável rol de caminhos possíveis para o correr do texto. São, obviamente, irreproduzíveis. São também assemblages, grandes envelopes que não só contêm a carta propriamente dita mas também postais, recortes de jornais e revistas, fotografias, amostras forçosamente condensadas de tudo aquilo que, de uma maneira ou de outra, ainda impulsiona Maria para fora da cama todos os dias. Essa voracidade chega a ser intimidante. Desconfio que Alessandra sente alguns ciúmes dessa mulher impulsiva que me escreve longas cartas, dessa mulher que conheço há tanto tempo e com a qual mantenho uma relação que ela parece não compreender. Da mesma maneira, suspeito que Maria se sente um pouco ciumenta, ou melhor, que sente uma desconfortável curiosidade por essa mulher mais jovem, tão fria e silenciosa, com quem vivo. Quando reencontrei Maria, tinha já trinta e seis anos, uma esposa e os meus dias começavam com o odor de café acabado de fazer. Acabava também de publicar o meu segundo livro e ainda trabalhava a tempo inteiro na Biblioteca da Academia. O meu livro (pouco mais de setenta páginas, demasiado pequeno para ser um romance e demasiado grande para ser um conto; publicado, ainda assim, num pequenino volume em nome próprio), uma biografia imaginária de Auguste Le Prince, um francês que trabalhava no aperfeiçoamento de um aparelho idêntico ao dos irmão Lumiére e que, segundo se crê, poderia ter-se-lhes antecipado se em 1890, numa viagem entre Dijon e Paris, não tivesse desaparecido misteriosamente, e era justamente esse misteriosamente que eu me permitira investigar de forma especulativa, preenchendo umas lacunas e criando outras, dando a essa ténue personagem que era Le Prince uma espécie de passado, passara tão despercebido como o anterior.
Mas era de Maria que falava. Encontrei-a numa livraria quando, vasculhando uma pilha de livros em saldo, ouvi, atrás de mim, alguém que chamava o meu nome. Virei-me e, improvavelmente, lá estava ela, um monte de livros em cada braço, o cabelo aqui e ali começando a ficar grisalho, um estranho par de óculos empoleirado sobre o mesmo nariz altivo. Li os teus livros, disse-me ela e eu não soube fazer outra coisa senão murmurar um envergonhado Obrigado, totalmente despropositado e tão patético que, ainda hoje, Maria se orgulha de me ter deixado sem palavras. Ficámos uns instantes de pé, cada um com a sua pilha de livros nos braços, conversando sobre os vinte anos que se tinham passado desde a última vez que nos tínhamos visto. A política, perguntei-lhe eu. Deixei-me disso, respondeu ela, deixei-me disso, pelo menos de uma forma activa. Escreves bem, disse-me. Disse-me também que estava apenas há uma semana em Lisboa, onde começara a trabalhar numa empresa estatal, depois de uma experiência falhada como proprietária de uma livraria no Sul do país. Trabalhava ali perto e morava, coincidência, no mesmo prédio onde tinha morado a minha bela da sabrina que, ao que ela sabia, ainda estava no Canadá, casada com um realizador da televisão canadiana que conhecera numa reunião da célula pouco tempo depois de eu ter deixado de aparecer. Ele viera para cobrir o clima de euforia pós-revolucionária que, por esses dias, ainda se vivia em Lisboa antes que tudo começasse, definitivamente, a desvanecer-se. As luzes da livraria começaram a apagar-se e ambos pousámos as nossas pilhas de livros em cima do balcão. Pedi que guardassem os livros dela junto com os meus e que, no dia seguinte, passaríamos a recolhê-los. Podíamos ir jantar, sugeriu ela já na rua. Isto é, se não tiveres outra coisa para fazer. Parámos num café para que eu pudesse telefonar para casa, avisando que não iria jantar e que não sabia muito bem a que horas chegaria. Que encontrara uma amiga que não via há vinte anos e que tínhamos muito que conversar. Continuámos a descer a rua e escolhemos um restaurante perto do rio.

É engraçado imaginar-te casado, disse ela, olhando para a aliança no meu dedo.
Porquê?, perguntei eu.
Porque sempre achei que não eras o tipo. Não tão cedo, pelo menos.
E tu? Também estás casada? E ela disse-me que tinha mais um filho – de oito anos – mais um filho de uma relação que não correra bem. É engraçado ouvir-te dizer que deixaste a política. Não abandonei totalmente, disse ela e, de súbito, pareceu completamente extenuada. Apoiou o cotovelo sobre a mesa e acomodou o rosto sobre a mão em concha. Ainda estou ligada a uns grupos de opinião. Tudo muito não-oficial, claro. Mas interessa-me cada vez menos essa farsa que é a política activa na qual se decide cada vez menos. Pelo contrário, interessa-me cada vez mais perceber de que forma os nossos actos mais comuns são, também eles, uma espécie de acto político. Tudo?, perguntei. Tudo. Desde a maneira como trabalhas até à forma como fazes as tuas compras. É demasiado complexo para estar a explicar. Pareceu então quase envergonhada de se estar a expor. Comemos em silêncio, só quebrado quando um de nós se lembrava de um qualquer membro da célula e perguntava ao outro o que era feito dele. Rapidamente chegámos a conclusão que poucos eram os que tinham realmente seguido a opção política.
Talvez só perseguissem saias. Como tu.
É por isso que achas engraçado ver-me casado? Por achares que me limitaria a perseguir saias durante toda a vida? Maria fitou-me em silêncio e acendeu um cigarro. Tens outras qualidades, respondeu ela, de forma lacónica. Mas também me parece que sim, que acreditava que nunca deixarias de perseguir saias. E nessa noite – trocámos ainda números de telefone e moradas – foi isso que obtivemos, uma primeira formulação de uma amizade, ainda algo grosseira, de contornos toscos, feita ainda de desconfianças que era preciso abolir. O tempo e a convivência – especialmente quando, depois de abandonar a minha mulher, precisei de um sítio para ficar e acabei por me fixar em casa de Maria, por cerca de um mês – encarregaram-se disso. Ainda assim, nessa noite, também se começou a esboçar algo que sempre nos têm acompanhado e que Maria tem aperfeiçoado constantemente, a saber, o verdadeiro contorno do meu problema que, na sua formulação actual, se pode resumir no seguinte: Maria chegou a uma conclusão, que eu sou atormentado pelas mulheres e que viverei em turbulência até atingir o que ela chama a iluminação, um estado próximo do desinteresse, do ascetismo. Que quando eu finalmente envelhecer, me resignarei ao facto de que nunca poderei ter todas as mulheres que desejo e essa consciência, essa resignação, dispensar-me-á da necessidade das mulheres e dos tormentos que lhes estão associados. Ainda assim, ainda que o juízo de Maria sobre mim possa estar correcto, quantos anos, quantas reformulações do conceito foram necessárias para que o compreendesse finalmente, para que o aceitasse e, juntamente com ele, a clarividência dela?
Por isso, sou forçado a responder quando Maria me pergunta Ainda te deixas atormentar?

Da série Filatelia, parte 1

9.03.2003 by alberto cinza

para a Carminda

Ainda te deixas atormentar?
Não é uma pergunta de resposta fácil, mas Maria raramente faz perguntas cujas respostas sejam fáceis. Interessa-lhe mais provocar o desconforto. Maria é uma atiradora furtiva. A experiência política não é alheia a esta maneira de colocar os outros em xeque, ainda que o tema não seja – ou já não seja –, necessariamente, a política. Mas não será – é Maria quem o diz – cada uma das nossas atitudes uma atitude política? As cartas de Maria, como esta que tenho entre as mãos, chegada ontem, restauram sempre, e de cada uma das vezes, a militância nessa espécie de dúvida activa.
Do princípio. Estive com Maria em Lisboa. Tomei o pequeno-almoço com ela no meu último dia na cidade. Ela não disse que me escrevera. Quatro horas depois, sobrevoei o Mediterrâneo sob o efeito de sedativos.
Maria tem quarenta e seis anos, cabelo curto, negro a encanecer, um corpo miúdo de criança, quase frágil e uma gargalhada larga e contagiante. Tem, além do mais, tal empatia comigo que quase me dá pena que nunca tenhamos sido, sequer, amantes. Nunca a ocasião foi propícia, nem nenhum de nós se dispôs a forçá-la nesse sentido. Conhecemo-nos há muitos anos, desde 1975. Ela tinha 21 anos, a mesma postura insinuante, dois filhos e uma esperança ilimitada no futuro. Eu tinha 18 anos e perseguia arduamente uma rapariga que pertencia à mesma célula política que Maria, o que fez com que me inscrevesse também, ainda que das reuniões a que assisti a memória mais vívida que tenho seja a maneira como essa rapariga – da qual nunca me lembro do nome; uma vez por outra, Maria lembra-mo, para provar este ou aquele ponto de vista sobre mim, mas ela não está aqui comigo para o fazer –, de perna impecavelmente cruzada, descalçava a sabrina direita e, levemente, a fazia balançar na ponta do pé. Guardei este simples acto, este erotismo clandestino condensado num gesto distraído que eu observava atentamente, vorazmente, destituiu-me de qualquer outra recordação desta minha breve passagem pela política - dando-se, ainda para mais, o caso de o meu cerco a essa rapariga não ter surtido outros efeitos além dessa excitação esquiva, voyeuristíca. De qualquer das formas, Maria, que eu visse, raramente se descalçava durante as reuniões, estando quase permanentemente de pé, fazendo valer o seu direito a ser ouvida e, depois, nos cafés em que a discussão continuava, permanecia ainda de pé, bradando, vociferando, contagiando os que não tinham assinado nenhum pacto com qualquer das inúmeras facções que essa célula comportava e, evidentemente, alienando os restantes. Maria aglutinava à sua volta aqueles a que hoje chamaríamos o eleitorado flutuante, todos aqueles que, ainda que concordando, não discordavam ou os mais radicais, os que acreditavam que tudo estava em discussão, que nada estava garantido. Maria, com a sua energia e a sua combatividade, chegava até a atrair aqueles – como eu -, aos quais tudo aquilo – a discussão, os fóruns, o activismo, a acção cívica, as palavras de ordem, as inscrições provocatórias espalhadas pelas paredes das principais artérias da cidade, a tentação da acção directa, da passagem das palavras aos actos – interessava de forma muito indirecta, um interesse mediado, no meu caso, pelo acto supremamente adolescente de tentar uma espécie de osmose com o objecto do desejo, mediado pelo balançar ritmado de uma sabrina na ponta de um pé branco, tão branco como ingenuamente obsceno, e, no caso dos outros, mediado por toda uma outra série de razões que nunca me interessou aprofundar mas que talvez não estivessem assim tão distantes do meu próprio filtro. Tanto assim que, no auge desse período de fervor revolucionário, Maria, 21 anos, uma morena miudinha de vontade inquebrantável, já mãe de dois filhos, se perdeu de amores por um suposto companheiro de trajecto, deixando para trás o pai dos seus dois filhos, um melómano politicamente inexistente. Mas também chegaremos a isso e aos maus amores de Maria, às suas escolhas e às suas desilusões.
Portanto estava eu posto em sossego, deixando-me hipnotizar pelo balançar do sapato da minha bela – que, sem que eu o soubesse ainda, nunca viria a ser minha e da qual prontamente esqueceria o nome – quando Maria irrompeu na minha vida com a força de um furacão. A bela, a tentadora da sabrina, era – descobri-o não sem algum agrado – vizinha de Maria e muitas vezes, a altas horas da madrugada, quando as últimas luzes dos cafés se apagavam indicando-nos que, agora, o caminho se fazia para casa, vi-me ladeado por ambas, desempenhando o papel de cavalheiresco pretendente a quem competia – a uma por devoção e a outra por ética – levá-las a casa. Moravam ambas na mesma rua mas a minha bela – de quem, definitivamente, só recordo o aflitivo e delicioso balançar da sabrina na ponta do pé, tendo-se a minha memória encarregado de apagar quaisquer outros vestígios do nosso breve cruzar de caminhos – vivia no início da rua e Maria um pouco mais adiante – um quarteirão, talvez meio. Desse modo, separava-me primeiro dela – aquela que, na verdade, era a minha única razão para me encontrar ali, numa zona da cidade que, felizmente, não era assim tão distante da zona em que eu próprio vivia – e depois, por entre olhares que então me pareciam cheios de significado e hoje me surgem sob a luz oposta, entre dois beijos na face e uma última e angustiada espreitadela por cima do ombro para a porta já fechada, prosseguia o caminho rua abaixo para cumprir o dever de acompanhar a casa a pequena Maria. A princípio, não conversávamos muito. Eu acompanhava-a à porta de casa e depois quase corria para a minha casa, onde pacientemente esboçava a ordem de trabalhos para o dia seguinte, para a etapa seguinte da perseguição. À medida que as minhas hipóteses de ter sucesso com a bela (e com elas o meu interesse) foram diminuindo comecei a dedicar um pouco mais de atenção à rapariga de ar exausto que levava a casa. Começámos por falar de política, ela já de uma forma menos arrebatada e eu numa espécie de interesse cortês, mas rapidamente passámos para outros assuntos que, verdadeiramente, nos interessavam a ambos. Literatura, música, cinema. O tempo era de enxurrada, a oferta em qualquer um destes campos não parava de se alargar e Maria, tal como em relação à política, encontrava tempo para digerir tudo aquilo, toda essa torrente de informação e permitir-se ter opinião sobre quase tudo. Ela falava de jazz com a mesma paixão com que defendia o fim da influência americana – ou, para esse efeito, de qualquer outro país – em Portugal, sobre Leonard Cohen ou Van Morrison como sobre Mao ou Marx, sobre Cukor, Syberberg ou Rosa Luxemburgo com igual ardor ao que usava quando se referia a Camus ou a Trotsky. A sua energia, ainda que atenuada pelas muitas horas que levava já a trabalhar, a tomar conta de duas crianças, a pensar, a discutir e, ainda, a absorver toda essa imensa quantidade de informação e a reflectir sobre ela, parecia-me inesgotável. Maria nunca acreditou – e ainda não acredita – em perder temo com trivialidades, nunca, como eu, lhe pareceram suaves os momentos mortos, os momentos de inactividade. Com ela, foi sempre tudo que esteve em discussão e tudo ao mesmo tempo. E um dia, tão subitamente como começara – mas chegara, realmente, a começar? -, o meu caso de amor com a bela acabou na previsível separação e deixei de frequentar as reuniões. Consequentemente, deixei de ver regularmente Maria, ainda que, como já disse, não morássemos muito longe um do outro. Os nossos ritmos deixaram, simplesmente, de ser compatíveis – eu comecei outra perseguição, desta feita na faculdade e ela, soube-o mais tarde, mudou de casa e foi viver com esse homem que referi anteriormente. E durante anos não voltei a encontrá-la.

Da série Os pormenores

8.19.2003 by alberto cinza

Um homem desembarca num porto qualquer. Um marinheiro de um desses antigos navios a carvão. Um fogueiro, portanto. Apesar da licença para ir a terra e de envergar as suas melhores roupas, olha, inquieto, em volta. Sente-se ainda coberto de carvão e de óleo. Passa tanto do seu tempo junto à fornalha, a alimentá-la, sem ver o Sol, que os olhos lhe fraquejam perante a luz.
Dá um passeio pelo cais e vê, para variar, outros a trabalhar. Desceu a terra como que sonâmbulo, em silêncio. Agora, o Sol bate-lhe no rosto, no esplendor dos músculos e essa sensação, que poderia ser gloriosa, deixa-o temeroso. Procura os bares e as putas - um porto é como todos os portos e haverá sempre bares e putas. Quer quebrar a sua mudez de estrangeiro entre as coxas de uma mulher. De qualquer mulher.
Entra num bar antes de procurar uma mulher. Tem sede. Lá dentro, é como ao lusco-fusco da fornalha, só que o fogueiro, esse, está do outro lado do balcão e a fornalha, sempre sedenta, desdobra-se em muitas bocas, em muitos homens.
O marinheiro ajeita-se como pode no espaço que lhe é concedido entre os outros homens. Alguns dos que estão ao seu lado, conhece-os - vêm do mesmo navio que ele. Mas não consegue distingui-los. São todos como faces do mesmo homem. Um prisma. O marinheiro não pensa nisso. Bebe cerveja e pensa em Deus. Pensa na pele macia entre as coxas das mulheres, que, para ele, é o mais palpável vestígio da existência de Deus.
O copo está a meio. Ao seu lado, alguém tenta vender um relógio. Chegam-lhe às mãos fotografias. Obscenas, pois claro. Uma espécie de catálogo de um mercador de prazer. Pensa, então, como a arte da fotografia fica tão aquém na transmissão do mistério divino que está encerrado entre as coxas de uma mulher.
Os pormenores estão em Deus, Deus está nos pormenores. O marinheiro entende-o, porventura melhor do que eu.

Da série Memórias de Eric Van Meir

8.06.2003 by alberto cinza

Quando as vi, não queria acreditar.
Tínhamos vindo a correr do hotel. O meu irmão aparecera a bater-nos à porta do quarto (sim, ainda estava vivo; faleceu dois anos mais tarde), excitado, o rosto ruborizado. Têm que vir já, disse-nos. Têm que vir já, antes que as levem!
Corremos rua abaixo, sem o questionar. Estava demasiado excitado para perder tempo a responder às nossas perguntas e corria agora à nossa frente, olhando-nos por cima do ombro. Eu e a minha prima corríamos, histéricos, de mão dada (já lhe falei da minha prima, creio eu? ou talvez o tenha lido num dos livros? ela está num deles, sabe?) e, na nossa excitação, virávamo-nos para trás – seguiam-nos os meus tios americanos, gordos e ofegantes – e gritávamos, também nós, Vamos, vamos! Senão levam-nas!, ainda que nenhum de nós pudesse imaginar quem seriam elas ou, pior ainda, esse tenebroso “eles” que poderia levá-las a qualquer momento. Levá-las e privar-nos desse espectáculo que não sabíamos qual era mas que rapidamente se nos tornara imprescindível, uma dessas experiências pelas quais se tem inevitavelmente que passar.
Quase perdêramos o meu irmão de vista (ele tinha 14 anos e corria muito mais depressa do que eu e a minha prima, com sete e seis anos respectivamente, e infinitamente mais depressa do que os meus tios) mas enfim lá estava a praia. Tão excitado estava eu que de bom grado teria continuado a correr até chegar à beira do mundo, não fosse a minha prima agarrar-me a mão com mais força, apontando-me o meu irmão que atingira já a areia e seguia em direcção à beira-mar, seguido pelos meus tios que, sabe Deus como, tinham conseguido ultrapassar-nos e corriam também areal fora, as passadas trôpegas e cambaleantes do meu tio anunciando a queda iminente e os passinhos gorduchos e sincopados da minha tia.
Quando finalmente os alcançámos (lembro-me da sensação das pernas prendendo-se na areia, do cansaço e da certeza inabalável que, dentro de muito pouco tempo, veria uma maravilha que jamais imaginara possível) eles estavam parados entre os outros, olhando para diante, para o mar.
Pequenos como éramos, a nossa visão obstruída pelo continente adiposo que eram as nádegas e costas dos meus tios, começámos a furar por entre a multidão. Excitados, empurrámos indiscriminadamente todos os que se postavam à nossa frente. Ninguém ofereceu resistência aos nossos esforços. Todos os olhares estavam fixos no que quer que fosse que havia adiante e nenhum rosto se virou para nos censurar.
Conseguimos, afinal, furar por entre a multidão compacta mas estranhamente permeável, que ainda há pouco nos parecera ameaçadoramente intransponível, e o que primeiro vimos foi o meu irmão, a sua t-shirt amarela flutuando ao vento, de ténis nas mãos, os pés nus retorcendo-se na areia. Chamámo-lo mas não parecia capaz de ouvir-nos. Ultrapassámo-lo mas, apesar de continuarmos a chamá-lo, demorou bastante tempo a virar para nós o seu rosto. Não respondeu, apesar de parecer impossível que não nos ouvisse. Pareceu-me que chorava e tudo no seu rosto era desolação. Depois, a minha prima soltou um gritinho de excitação e de temor e só então pude vê-las.
Sobre a língua de areia que confinava com o mar, como se se tivessem arrastado penosamente até ali, estavam duas enormes baleias. A princípio, custou-me a acreditar na realidade daquela presença. Que aqueles dois leviatãs, como dois velhos cansados, pudessem ter tombado ali à beira-mar, à vista de todos os banhistas, pareceu-me desonroso (sim, creio que foi uma espécie de vergonha que senti ao vê-las, como se nenhum dos presentes estivesse habilitado a assistir aquele terrível momento de fraqueza de dois seres tão incomparavelmente maiores que nós) e, de todo o meu coração, a primeira coisa que desejei fazer foi procurar alguma coisa com que pudesse cobri-los e afastar toda a gente daquele local. E depois sobreveio uma espécie de náusea, uma estranha pontada no estômago que, insistentemente, se foi agigantando e tive que cerrar os lábios com todas as minhas forças para que o meu corpo não tivesse por onde expelir tudo aquilo que nele, subitamente, começara a agitar-se. Cobri a boca com a minha mão livre (a outra mão estava agora entre as duas pequenas mãos da minha prima que, incapaz de se controlar, soluçava e estremecia) e tentei respirar apenas pelas narinas. O ar salgado, a que se misturava já um ligeiro odor a decomposição, não dos corpos das baleias, mas dos seus dorsos, dos outros seres que mortos sobre o seu dorso e expostos ao Sol começavam já a emanar esse odor pútrido. Ainda assim, respirei com quanta força tinha. Respirei arduamente e, finalmente, não consegui controlar-me mais e comecei, também eu, a soluçar.
Larguei a mão da minha prima (que correu a ajoelhar-se junto ao meu irmão, agarrada às suas pernas) e avancei em direcção às baleias. Vários homens caminhavam junto delas, cobrindo o rosto com o fino tecido das camisas de Verão e t-shirts que traziam vestidas. Uma das baleias (a que estava mais perto da multidão), tinha um dos olhos abertos. O seu olho era imensamente triste (mortalmente triste, talvez). Avancei mais uns passos mas antes que pudesse chegar-me mais perto dela senti uma mão sobre o meu ombro, detendo-me, a mão do meu tio pressionando gentilmente o meu ombro, impedindo-me de avançar. Virei-me para ele, mudo, vi o seu rosto congestionado pela corrida que fora obrigado a fazer mas também pelo luto colectivo que descera sobre todos os que se encontravam na praia e, finalmente, também eu quebrei e comecei a chorar.
O meu tio carregou-me para casa enquanto, um pouco mais atrás, a minha tia segurava o corpo ainda convulso da minha prima, o rosto enterrado no seu regaço. O meu irmão foi autorizado a ficar ainda mais um pouco (não sei de que forma o afectou essa cena; nunca falámos sobre isso).
Mas nunca esqueci o olho aberto da baleia que, por instantes, me fitou. E mais tarde (bem mais tarde) senti que esse olho sobre mim deveria pesar como uma espécie de advertência, como um aviso acerca de determinadas escolhas que se fazem, algumas mais ditadas pelo capricho que pela necessidade, e das consequências dessas escolhas. O olho da baleia abateu-se sobre mim como o olho de Deus (de um deus; não sou um homem religioso). Talvez, de uma maneira ou de outra, nunca tenha deixado de o olhar.

da série Quarto 312

7.30.2003 by alberto cinza

- Levo estas ou aquelas?
- Hmm...
- Eu levava estes – ergue a mão direita – mas prefiro que sejas tu a escolher.
- Não sei. Eu gosto das duas. Acho que estou, por assim dizer, indecisa.
- Mas não é altura para estares indecisa. Já é quase meio-dia. Não tarda nada estão aí à porta.
- É que não sei mesmo – finge-se ofendida – e, além disso, não gosto que me pressiones. Se não tivesses dormido até tão tarde não...
- Não te estou a fazer uma pergunta de vida ou de morte. Caramba! São só toalhas de rosto. Iguaizinhas. Salvo pela risca lilás nestas e azul-marinho naquelas e com a diferença que estas – ergue novamente a mão direita – estão usadas e aquelas estão limpas. Portanto...
- Estou a pensar, estou a pensar.
- Pronto. Levamos estas.
- As limpas?
- As limpas.
- Achas mesmo que o azul-marinho combina?
- Havemos de fazer com que combine. Em que mala é que disseste que podia pô-las?
- Não disse, tontinho.
- Eu sei que não disseste, tontinha. Estava apenas à espera que mo dissesses agora.
- Estás impossível. Na mala pequena.
- A mala pequena está a abarrotar.
- Não, não está. Decidi não levar o abat-jour.
- Quando foi isso?
- Há pouco. Enquanto saqueavas o armário da casa de banho. Achei que sépia não era, por assim dizer, a nossa cor para esta estação.
- Enquanto eu saqueava o armário da casa de banho? Tu é que insististe em levar todos os sabonetes e todos os toalhetes.
- Sabes como tenho calor nas viagens. Preciso sempre de umas coisinhas frescas por perto. Vais arrumar as toalhas ou queres que as arrume?
- Consigo perfeitamente arrumar as toalhas.
- Não vale a pena irritares-te. É só porque já é quase meio-dia e...
- Não me imites.
- ...e, além disso, ainda são quatro andares até à entrada.
- Raio de elevador!
- Precisas de ajuda com o fecho?
- Sim. Puxa desse lado.
- Assim?
- Isso mesmo. Só mais um bocadinho... Mais... Perfeito!
- Achas que podemos ir?
- Não nos esquecemos de nada?
- Não, acho que não. Vamos ver. Misturei os sabonetes e os toalhetes com os meus cremes, enfiei os roupões de banho no saco da roupa suja, bem lá no fundo, as fronhas estão dobradas entre as tuas camisas, as toalhas de banho estão no fundo da mala grande e as de rosto estão...
- Na mala pequena. Certo. Acho que estou a ouvir passos no corredor.
- Devem ser os do lado. Saem sempre a esta hora.
- Pois, os do lado. Mas vamos embora, vamos.
- E se desconfiarem? E se – agarra-lhe o braço, nervosa – nos obrigarem a abrir as malas?
- Fazemos um ar de tremenda indignação e dizemos que façam o favor de meter o nariz onde lhes apetecer. Quem não deve não teme.
- Provérbios?
- Um provérbio dá sempre bom ar. É popular, é saudável. É quase um atestado de honestidade. Não se desconfia de alguém que usa provérbios. E o abat-jour?
- No armário.
- No armário? Porquê?
- Não consegui pô-lo no sítio.
- Bem, agora é tarde demais para isso.
- Vamos.
- Vamos.
Enquanto ele fecha a porta, ela alisa a saia e cochicha-lhe
- Achas que vão dar pela falta de alguma coisa?
- Ora, os hotéis têm seguros para estas coisas. É como se fizesse parte da diária, percebes? Um pequeno bónus.
- Um pequeno... bónus? – rói a unha, distraída.
- Claro, querida.
- Claro.

A morte de um mulherengo, parte 8

7.24.2003 by alberto cinza

A morte de um mulherengo
Foi a primeira vez que visitei Bilbao. Que depois dessa primeira visita tenha deixado para trás a minha antiga vida e me tenha vindo instalar na cidade, junto ao rio, a visão das montanhas circundantes perdendo, a cada dia que passa, o carácter opressivo que tanto me fez detestá-las quando as vi pela primeira vez, isso não me parece estranho. Creio que quis possuir tudo aquilo que ele deixou sem dono naquela noite em que, junto ao rio, nos vimos pela última vez. Hoje, não poderia já viver sem elas, sem a cidade, sem estes enormes sapatos de homem em que, distraídamente, enfio os pés quando, à noite, descansando, me sento à varanda, fumando os cigarros dele, os cigarros que ele fumava. E esses cigarros, esses sapatos, são o que resta dele, os únicos indícios que não desapareceram com ele nessa noite de inesperado nevoeiro. São essas as únicas coisas que ele, apontando como sempre para a lua e esquecendo-se da terra, deixou sem que eu os tivesse reclamado, os únicos indícios desse espaço mental em que ele se movia – essa geografia da mente – e que eu ocupei por inteiro, em surdina, insidiosamente.
E porque foi então que vim a Bilbao senão precisamente para isso, para reclamar tudo aquilo que ele teria de deixar para trás quando partisse para essa secreta viagem, essa viagem que sempre se anuncia e quase nunca se cumpre? Mesmo que não fosse essa a minha intenção quando pousei as malas em casa dele, não era já esse o trajecto que era forçoso que se cumprisse, esse trajecto de mudança de pele, a última antes do fim, essa mudança derradeira que reclamava já a sua vez e que, para que se cumprisse, necessitava que eu me deslocasse pela primeira vez a Bilbao – a cidade dele e, agora, minha -, me sentasse junto à cama dele, essa mesma cama onde ele ardia em febre e, lentamente, começasse a apoderar-me de tudo aquilo que lhe pertencera? E como poderia eu negar-me a fazer essa viagem – negar-se-ia ele se fosse o contrário? -, como poderia negar-lhe, negar-nos, essa extrema unção que, desde há tantos anos atrás, tinhamos estabelecido como pacto entre nós? Estarás à minha cabeceira quando eu morrer, a mesma frase dita em uníssono pelos dois, dois corpos nus, ainda jovens, caídos entre lençóis desfeitos num quarto anónimo, o pacto estabelecendo-se, o entendimento das reais condições em que o amor deve passar-se, as palavras exactas, cristalinas, puras. Tudo aquilo que as nossas vidas deveriam ter sido, condensando-se nessas poucas palavras. Tudo aquilo que deveríamos ter sido – tudo aquilo que não fomos e que agora é já demasiado tarde para recuperar -, como numa bela jura adolescente, um juramento que hoje me dá o direito de dormir entre os lençóis em que ele dormiu, de fumar os cigarros que ele fumou, sentada nessa mesma varanda aos pés da qual se estende exactamente a mesma paisagem – o mesmo rio, as mesmas montanhas – que ele contemplava e que eu agora contemplo, os meus pés dentro dos sapatos demasiado grandes. E não será isso que compete aos amantes? Não será, acima de tudo o mais, esse trabalho de guardiães das memórias daqueles que já não estão entre nós, esses que um dia se habituaram a considerar o espaço entre os nossos braços como o seu lugar?
E foi por isso que, enquanto ele agonizava em casa, deitado nesta mesma cama em que eu agora durmo, nos dedicámos ao árduo trabalho de estabelecer tudo o que um dia lhe pertencera e que eu deveria guardar, tudo aquilo de que ele deveria libertar-se antes de poder encetar a prometida viagem – a primeira viagem, a última viagem – para o seu interior, para esse espaço que deveria ser esvaziado, cujo conteúdo deveria mudar de mãos, transformar-se num espaço vazio, grande o suficiente para o conter a ele, ele que aí tomaria refúgio. Apoderei-me portanto de tudo. E era assim que deveria ser.
E no entanto, agora que tudo terminou, agora que o vi erguer-se da cama pela última vez, vestir-se pela última vez perante os meus olhos, puxar o cabelo para trás – menos cabelo agora – e alisar o bigode – esse estranho bigode que nunca imaginei que ele pudesse algum dia chegar a deixar crescer -, agora que o vi despojar-se de tudo, que me tornei a única detentora de todas as suas memórias, de todos os seus pertences, que o vi sumindo-se por entre o nevoeiro, a longa silhueta esbatendo-se entre a névoa, a caminho desse lugar secreto do qual nenhum de nós saberia dizer o nome, apontando, como já disse com alguma amargura, para a lua e esquecendo-se da terra, não posso deixar de me perguntar qual o significado de tudo isto. Esta casa vazia? Estes sapatos demasiado grandes que, acometida por um inesperado desconforto, chuto cada um para seu lado?

A morte de um mulherengo, parte 7

7.21.2003 by alberto cinza

Impressões digitais
A quem pertence verdadeiramente o nosso corpo? A quem pertencem verdadeiramente os corpos que tocamos? Serão apenas nossos? Assim mesmo – apenas – como se se tratasse de uma fatalidade. Ou serão nossos apenas – e esta pequena alteração faz, como se verá, toda a diferença – por um mero acaso, por uma decisão caprichosa que escolhe este corpo em vez daquele? Não pertencerá, então, o nosso corpo – o meu corpo – a todos aqueles que alguma vez o tocaram? Não pertencerão todos os corpos a outros corpos que, por sua vez, pertencem a outros corpos, até à vertigem?
O meu ombro, este ombro que reconheço como meu, como uma parte do todo a que chamo o meu corpo, que nele se integra harmoniosamente, pertencer-me-à realmente? Não pertencerá ele aquelas mãos que primeiro o tocaram, que pela primeira vez o destacaram de entre o conjunto do meu corpo e o autonomizaram? Não pertencerá o meu ombro ao primeiro que lhe deu vida? E aos que se lhe seguiram, aqueles que, mesmo não podendo nenhum deles ser já o primeiro, encontraram outras formas de lhe insuflar o sopro divino?
E as minhas pernas, estas minhas pernas sobre as quais me equilibro ainda hoje, sobre as quais sempre me equilibrei? É bem verdade que sou eu quem nelas se desloca, sou eu quem por elas é deslocado, mas não pertencerão elas aqueles com quem corri a encontrar-me? Não pertencerão elas aqueles que me levavam a correr na sua direcção, os que as cobiçaram e, finalmente, as possuíram? Não pertencerão estas pernas, mais do que apenas ao meu corpo, a outros corpos com os quais me encontrei em quartos arejados e cheios de luz, onde as minhas pernas brilhavam? Não pertencerão elas ao corpo daqueles com quem me cruzei apenas por breves instantes, em locais de preferência escuros, lugares esses em que as minhas pernas se detiveram e fraquejaram sob o peso das carícias, sob a mão pesada de um outro corpo, sob a mão férrea do prazer? Não pertencerão então estas pernas – que os outros vêem como minhas; que eu própria me habituei a considerar minhas – a esses outros corpos, cujos rostos não recordo senão imersos em sombras, distorcidos pela escuridão e pelo tempo, esse grande nivelador?
A quem pertence pois o meu pescoço senão aqueles que o cobriram com beijos, senão aqueles que o acariciaram suavemente ou aqueles outros que o forçaram – esses que intuem que o corpo é uma vil mecânica e que é preciso que aprendamos a forma certa de lidar com ele e que essa forma é a força -, que o utilizaram a seu bel prazer e depois o abandonaram, esquecendo porventura que era o meu pescoço que continuava nas suas mãos, que eram os seus dedos que se demoravam no meu pescoço? O que são ambos, ainda hoje?
E os meus dedos? As minhas palmas? Não estão eles perdidos para sempre em torsos cujo contorno já não recordo e de quem, apesar do paradoxo, os meus dedos e palmas continuam tão íntimos como nos dias em que, verdadeiramente, o éramos?
Onde está então o meu corpo senão nos corpos de todos os que alguma vez me tocaram, disseminado nesses corpos que se movem longe de mim, como se houvessem mares entre nós? E onde estão esses corpos senão no meu?
E onde está o teu corpo, meu querido, onde está o teu corpo?

Os meus olhos perscrutavam-na através do copo de vinho, sentados ainda à mesa. E como era magnífico olhá-la – os gestos largos, todo o corpo oferecendo-se-me, a carne florescendo a cada palavra, a cada novo gesto, os lábios abrindo-se em frequentes expressões de assombro -, esquecida de mim, os seus olhos - todo o corpo - perdidos em memórias de outros corpos que a ela haviam chegado antes de mim – como sempre acontece com todos os corpos a que alguma vez chegamos -, recordando-se das impressões digitais dos outros e aparentemente incapaz de se conseguir recordar das suas. E era portanto nesse corpo, esse corpo que era – pois se era ela quem o dizia, como poderia eu duvidar? – uma amálgama de outros corpos, que o meu corpo, no qual, segundo ela, era também visível a marca dos outros corpos, do que tinham levado de mim, do que deles ficara sobre mim, se preparava para mergulhar.
E quando a deixei na manhã seguinte, dormindo à luz outonal da manhã de Sevilha, o ombro nu sobressaíndo dos brancos lençóis desalinhados, a moldura desajustada dos longos cabelos negros cobrindo-lhe o rosto que apenas deveriam guardar e enquadrar, não pude deixar de me perguntar que parte de mim ela reclamaria como sua e que parte dela me seria dado levar comigo (pensei que, pudesse eu escolher, levaria as costas magníficas, de atleta, que só conseguia entrever, parcialmente cobertas pelo lençol, que só adivinhava, e recordava, quando pela última vez a vi, postado junto à cama em que ela dormia - justapondo-se ao meu próprio corpo, adaptando-se a ele, aprendendo a fazer parte dele). E pensei em quem – a primeira, sei-o bem – guardava naquela noite as minhas impressões digitais e roguei-lhe que tivesse o maior dos cuidados, que não as tratasse com leviandade.
Depois, saí e fechei a porta sobre aquelas magníficas costas de atleta que subiam e desciam, seguindo o ritmo pesado do sono.

Aldino, o Inventor

7.18.2003 by A. Évora Souto

O Tempo*


Para quem o vê na parede da arrecadação, por cima do tumulto de fios, ferramentas e mecanismos estropiados da bancada de trabalho, não passa de um banalíssimo relógio de cozinha. Redondo, em plástico azul, os números pretos gravados no fundo branco, nome acabado em ex. No entanto, para Aldino Almeida, funcionário dos Correios e criador do artefacto, trata-se de uma “tremenda maravilha”.
“Bom, na verdade, estamos na presença do relógio mais certo do mundo. Sim, sim, o mais certo. Um velho sonho de muitos anos que finalmente se concretiza. E neste momento, tê-lo ali na parede, preciso como o imaginei, faz-me sentir profundamente realizado.
Sempre me fez espécie o facto de o meu relógio e os das outras pessoas nunca marcarem a mesma hora. Se com os minutos as coincidências ainda acontecem, apesar de raríssimas, quanto aos segundos não lembro de alguma vez tal suceder. E a questão surgiu: Quem tem o relógio certo? E, depois, até as próprias estações de rádio e a televisão a emitirem sinais horários dessincronizados. Às vezes já uma vai lançada na primeira notícia ainda na outra não soou o último pi. E tudo isto me confundia. Queria um relógio que indicasse as horas, os minutos e os segundos exactos. O tempo-padrão do Observatório de Greenwich. Claro, existem grandes máquinas em universidades e instituições científicas que aparentemente satisfazem a minha pretensão. Mas essas não contam. Porque, por um lado, não as posso levar para casa, e, por outro, nem sei se são tão fiáveis assim. Quem me garante que não se avariam e se atrasam? Bom, andei nisto anos e anos. Ás vezes a coisa passava durante uma temporada. E eu considerava-me definitivamente curado. Mas depois, despoletada por uma qualquer peripécia da vida, lá voltava a “pancada”. No fundo, eu sempre soube que só descansaria quando resolvesse o problema.
Também o meu professor de Biologia do quinto ano ajudou à teimosia. Chamávamos-lhe Musaranho, porque media pouco mais de metro e meio e usava o cabelo, preto, cortado rente. E ele dizia: “Em Ciência, meus jovens, a atenção é muito importante. Às vezes julgamos que olhando muito longe conseguimos resolver os problemas, mas depois, afinal, percebemos que a solução sempre esteve ali ao alcance da mão. Como aquela pessoa que não pode entrar em casa porque não tem chave, e ela debaixo dos pés, sob o tapete da entrada.” Que advertência. E que revolução. De repente, estava ali um método feito à medida. Procurar à volta, remexer nos cantos, levantar os pés. Olhar onde os outros se tinham esquecido de olhar. As minhas ilusões quanto à obtenção do “canudo” eram escassas. Aliás, a carreira escolar terminou nesse mesmo ano. Mas a Ciência atraía-me. Sobretudo a possibilidade da descoberta, da invenção. E com este método pouco académico…
E foi assim. Matutei, matutei, matutei. Muitas frustrações, ocasiões em que esteve quase mas…havia sempre um mas, e as desistências para “nunca mais”, e os regressos a rebentar de confiança. Até que uma tarde, regressava a casa de autocarro, a ideia surgiu. Clarinha, clarinha. E desta vez não havia hipótese de falhar. Eureka! Conseguira finalmente criar o relógio mais certo do mundo!
Fui buscar ao sótão dos meus sogros um relógio avariado, vítima de uma bolada dos netos. Limpei-o bem limpinho, pus-lhe um vidro novo, substitui os ponteiros, puxei o lustro, e defini, com precisão, a hora no mostrador. Aspecto importante. Quem olha não pode ter qualquer dúvida. Marca seis horas, vinte e três minutos e quinze segundos. E então, os braços com pele de galinha, pendurei-o na parede.
Sei que, aqui chegados, algumas pessoas ficam confusas. Como pode um relógio que marca sempre a mesma hora ser o mais certo do mundo? E então eu retorno às palavras do professor de Biologia: “Olhar para debaixo do tapete da entrada”. A chave está mesmo aí.
De doze em doze horas, algures na volta completa ao mostrador, e durante um segundo, o meu relógio e o Observatório de Greenwich indicam exactamente o mesmo tempo. Não sei o momento em que isso acontece, é verdade. Mas tenho a certeza absoluta que o facto ocorre. E Não há hipótese de avaria, nem hipótese de atraso. Enfim, a precisão total que procurava!
Só dois segundos por dia?, ridicularizam alguns. Bom, a esses lanço o desafio de fazerem melhor. E garanto, desde já, o fracasso das tentativas.
Outros, ainda tentando desvalorizar, argumentam com a universalidade dos relógios parados. A esses respondo com o exemplo do gelo. Apesar de ser das substâncias mais vulgares do planeta, basta pensar nos milhões e milhões de toneladas acumuladas nos pólos, se o quisermos disponível para a uma boa limonada precisamos obrigatoriamente de um congelador. Ou seja, o gelo até pode ser igual ao dos pólos, mas para cumprir a função de refrescar a limonada, foi preciso alguém criar o congelador. O meu relógio existe com um fim bem definido. E, por essa razão, e tanto quanto sei, é o primeiro e único na história da Humanidade.

* Texto publicado, em Setembro de 1980, no nº 3 da revista Aurora.

A morte de um mulherengo, parte 6

7.15.2003 by alberto cinza

Não vás para casa com tesão
Nasci nas traseiras do salão de beleza dos meus pais, a minha mãe deitada no chão da arrecadação, entre caixotes cheios de rolos para o cabelo ou tintas de diferentes cores – nuances como hoje lhes chamamos -, demasiadas pessoas – demasiadas mulheres, entre empregadas e clientes - acotovelando-se naquele espaço exíguo, o meu pai parado junto à porta, a bata branca coberta por manchas de tinta e vários tipos de cabelos, a escova numa mão e a tesoura na outra, incapaz de se aproximar, vendo como as outras mulheres rodeavam a sua, lhe levantavam a saia, traziam água quente e toalhas, lhe seguravam a mão e lhe passavam os dedos pela testa, tranquilizando-a. E o meu pai, estático, junto à porta, coçando o fino bigode, assistindo sem pestanejar à minha chegada ao mundo, o bastardo – como ele acreditava e, segundo creio, sempre acreditou – que a sua mulher se obstinara em pôr no mundo.
Não é de estranhar que o salão, nos meus primeiros anos de vida, se tenha convertido em todo o meu mundo, que as portas da rua e das traseiras fossem os postos fronteiriços que me era proibido ultrapassar. Não é de estranhar que a minha mãe me dispensasse atenção a rodos ou que o meu pai me ignorasse ou me olhasse desconfiado – disse-me mais tarde que, ao olhar-me assim, procurava obter, dos traços do meu rosto, a confirmação das suas suspeitas acerca da minha existência, procurando reconhecer, ainda que vagamente, o rosto de um outro como modelo para o meu; certas vezes, as pessoas dir-nos-ão coisas semelhantes quando estão prestes a deixar-nos para sempre, justamente quando estão prestes a virar-nos definitivamente as costas -, enquanto eu, sentado a um canto do salão, brincava. Portanto, passava os dias entre os carinhos da minha mãe e os olhares desconfiados que o meu pai me dirigia enquanto coçava o bigode, um tique que herdei dele tal como herdei o próprio bigode. E entre as mulheres que, constantemente, atravessavam a sala, seguindo a minha mãe e se ajoelhavam à minha frente, apertando-me as bochechas, fazendo-me carícias distraídas, sorrindo muito mas procurando, também elas, o outro rosto que, segundo pareciam pensar, se ocultava por trás do meu.
As mulheres. Quando foi que primeiro reparei nas mulheres? Ou melhor, quando foi que primeiro reparei no que distinguia as mulheres? Poderá ter sido nessa vez em que, entrando na arrecadação – na realidade, o meu local de nascimento – em busca de qualquer coisa que a minha mãe me pedira – eu teria dez, talvez onze anos -, deparei com o meu pai, as calças caídas pelos tornozelos, sentado sobre um caixote, os olhos fechados e, à sua frente, uma mulher ajoelhada, a cabeça dela entre as pernas dele, nua também da cintura para baixo. Fiquei parado na entrada da arrecadação, fitando-os até o meu pai abrir os olhos e, vendo-me, erguer-se de imediato. A mulher ergueu-se também e, imediatamente antes da bofetada com que o meu pai, o seu sexo entumescido apontando ameaçadoramente na minha direcção, decidiu brindar-me por tê-lo interrompido, vi, pela primeira vez, o triângulo negro, o mistério que se esconde entre as pernas das mulheres. Foi apenas um instante mas que instante! Anos mais tarde, vendo o quadro de Courbet que se intitula Origem do Mundo, reflectindo sobre o que representara para mim esse primeiro contacto com a genitália feminina e sobre o que se passara na minha vida desde então, tive a mesma sensação de atordoamento, como se, mais uma vez, alguém me tivesse esbofeteado. De qualquer das formas, esse foi apenas o primeiro contacto.
Que, depois dissso, de posse de tão valiosa informação sobre as mulheres – ainda que eu não soubesse, exactamente, como nomeá-la -, tivesse começado a sentar-me nos locais que me ofereciam a melhor perspectiva das pernas dessas mulheres a quem o meu pai cortava o cabelo e a minha mãe arranjava os pés, procurando observar aquela zona acima das coxas, isso não pode ser considerado surpreendente. De alguma forma, sentia-me já como se me tivesse sido revelada a minha verdadeira vocação. Sentava-me portanto todos os dias num desses locais que eu mapeara e dos quais podia observar, discretamente, os indícios desse novo mundo no qual, de forma tão brusca como no outro, me vira introduzido. Não me recordo se havia alguma de entre essas mulheres que me agradasse particularmente observar mas suponho que não. Desejo era uma palavra que eu ainda não conhecia e os estímulos chegavam até mim de forma caótica, sem que nada os filtrasse.
Depois, começou a época àurea da masturbação. Estava já a entrar na adolescência quando comecei, desaparecendo misteriosamente do salão e tomando refúgio na arrecadação onde me masturbava, sentindo a cabeça a rodopiar, incapaz de ordenar o fluxo caótico do desejo que me inundava. De alguma forma o meu mundo continuava reduzido ao espaço do salão, os meus fantasmas condensando-se naqueles poucos metros quadrados da arrecadação que assistira ao meu improvável nascimento. E seria ainda essa mesma arrecadação que haveria de assistir ao último capítulo da minha pequena comédia adolescente quando, certa tarde, de calças para baixo, masturbando-me furiosamente, fui surpreendido pela entrada de uma das empregadas do meu pai, Lucia, uma mulher de cerca de quarenta anos, forte, mas não gorda, de fino cabelo castanho e rosto bondoso, embora feio. Fiquei tão surpreendido que nem tentei tapar-me e limitei-me a ficar ali de pé, olhando-a enquanto ela, divertida, não deixava também de me fitar, os seus olhos descendo até encontrarem a minha picha – a minha mão também, que continuava na mesma posição em que fora surpreendida - que, apesar de descoberta por olhos desconhecidos, continuava orgulhosamente erecta. Ela aproximou-se de mim e, colocando a sua mão sobre a minha, começou suavemente a masturbar-me. Não queres ir para casa com isso entre as pernas, pois não?, disse-me mas não lhe respondi. Limitei-me a fechar os olhos e deixei que ela terminasse o que eu começara.
Hoje, os meus pais estão ambos mortos – a minha mãe já há três anos e o meu pai o ano passado, ainda sem qualquer resposta às inquietações que sempre alimentou sobre a minha origem – e eu, como se desde o princípio não houvesse outra alternativa, tomei a meu cargo a gestão do salão e perpetuo a estranha relação que sempre mantive com estes poucos metros quadrados.

Maria de Lurdes

by N

Pobre Maria de Lurdes. O que uma fraca imaginação pode negar à vida...

No xadrez, além de todo o ultrajante poder de movimento que a rainha tem em contraponto ao tão pouco do rei, é a expressão ‘Peça tocada, peça jogada’.
Na máquina de escrever convencional, em que a tecla acciona o tipo que martela a fita e a folha de papel, é a impossibilidade de correcção sem manchar a página.
No sexo apaixonado e instintivo é a gravidez não desejada.
Na condução automóvel é a frente do nosso carro enfaixada na porta do carro que tinha prioridade.
No futebol é o penalty decisivo que o árbitro não marca.
Na vida, mesmo na vida que interessa, é o coração que deixa de bater para sempre.

Há momentos em que não há hipótese de redenção. Uma decisão, bem ou mal pensada, é final. Assim, seco. Assim, duro. Assim e pronto. Nada a fazer a não ser viver o que essa decisão nos traz.
Oh sim, somos livres! Mas somos só mesmo livres. Não há nada mais que isso que nós possamos ser. Quanto ao azar e à sua dama, a sorte, são eles que verdadeiramente governam, miúdos mimados e caprichosos, incapazes de perceber que nós somos muito mais importantes que os seus devaneios, que até sofremos com os seus desígnios, adivinho que polvilhados de pequenas risadinhas cheias de ranho e baba infantis.
Mas, enfim, os rendilhados não interessam. O que interessa é a história de Lurdes e do momento decisivo da sua vida.

Lurdes está atrás do balcão da mercearia. Entre uma cliente e outra vai lendo um livro que mantém escondido do Sr.Viriato, o patrão. Felizmente, para a sua leitura, esse homem gordo, de cabelo lambido e bigodinho aparado, decidiu passar mais uma vez a tarde na leitaria do outro lado da rua.
São três horas da tarde quando Maria da Conceição entra na mercearia. A Sãozinha é a melhor amiga de Lurdes e visita-a todos os dias por volta desta hora. Falam de namorados que nunca tiveram, de casamentos e filhos, sonhando do alto dos seus 17 anos.
Quando a amiga entra, Lurdes é surpreendida e atrapa-lha-se a guardar o livro, deixando-o caír para o lado de fora do balcão.
A Sãozinha apanha o livro do chão e olha-o com ar de estranheza. Olha para capa e estende o livro à amiga.
-Quem é esse Camus?
pergunta.
-Oh, não sei bem. Foi o professor Frederico que mo deixou aqui. Disse que o tinha de ler.
Sãozinha começa-se a rir e diz
- O quê? O pardalito anda de novo a rondar?
- Ó São, não sejas má! Ele é um pouco desajeitado, mas é boa pessoa...
ao que a outra responde, ficando séria de repente- Olha, Lurdes, homens a sério são o que estão em África a lutar. Como o meu irmão, sabes? Esses meninos copos de leite ficam cá e os outros é que vão para lá, dar a vida pela pátria.
Lurdes arruma o livro debaixo do balcão. Depois, ajeitando o cabelo ao cromado da balança, diz
-Sabes que ele me pediu em namoro?
em voz baixa, de uma maneira casual, continuando a mirar-se.
-O quê?
diz asperamente a Sãozinha.
- Aquele pau-de-virar-tripas ganhou finalmente coragem?
Lurdes olha para a amiga e aproxima-se dela, num gesto secreto
- Disse que eu, se me casasse com ele, poderia estudar. Se calhar até ir para a universidade.
-A sério?
- E disse também que o salário dele daria para isso, que eu não precisava de ficar amarrada à casa e que só teríamos filhos quando os meus estudos tivessem terminados. Íriamos viajar...
São abana a cabeça.
- Ó rapariga, e tu acreditas nisso? Agora é só promessas, promessas...mas depois...Essas coisas são só para as meninas das familias finas.
Lurdes esboça um protesto, que a outra rebate com um gesto, dizendo
-E depois, o que é que as pessoas vão dizer? Tu, de namoro com um professor enfezado. Precisas é de um homem a sério.
-E o que é um homem a sério, São? Diz-me lá.
-Um homem a sério é um dos nossos que luta por nós, pelo nosso país.
Lurdes pega num lápis, que usa para apontar as contas, e começa a brincar com ele entre os dedos. Depois, diz tímidamente
- Mas ele fala de coisas que são tão bonitas. Diz que um dia as mulheres vão ter direito a trabalhar como os homens, que tudo isto vai mudar, que o povo..
ao que a outra lhe faz um sinal para parar.
- Maria de Lurdes, tu vê lá com quem é que te metes! Esse tipo é comunista, toda a gente sabe.
-Não...comunista, achas?
O relógio, na parede atrás do balcão, dá a meia-hora. São diz que tem de se ir embora. Mas antes, tira um papel do bolso e estende-o a Lurdes. Diz
- Olha, está aqui o endereço do meu irmão, lá na Guiné. Ele escreveu-me a perguntar se não havia ninguém que eu conhecesse que se pudesse corresponder com ele. Eu pensei logo em ti.
-Eu, como Madrinha de Guerra? Ó São...
- O Zé está muito sózinho lá. Faz-me esse favor. Nas cartas ele parece tão triste...
-Está bem, eu escrevo.
-Prometes?
-Prometo.


Passaram-se vinte e cinco anos. Maria de Lurdes está deitada na cama. Ao seu lado, o seu marido ressona. O cheiro a vinho impregna o quarto. Sente o corpo dorido depois de ele lhe ter batido mais uma vez.
Enquanto chora em silêncio, pensa nesse dia em que o professor passou lá na mercearia. Ela respondeu-lhe que estava a gostar muito do livro e ele falou-lhe de ideias de que ninguém falava. E ela esteve quase a dizer-lhe que sim, que aceitava os seus planos de namoro e de casamento.Mas não disse, pensando nas palavras de Conceição.
Depois, passados uns dias, quando ela saía da mercearia, o professor surpreendeu-a, surgindo com o cabelo em desalinho, de ar apressado. Disse-lhe que a PIDE o ía prender e que nessa noite fugia para França. Implorou-lhe que fosse com ele.
Houve então esse momento em que ela hesitou e esteve quase a dizer que sim. Mas, depois, pensou que realmente o mundo de que ele lhe falava, que as coisas que ele lhe prometia, eram sonhos impossiveis. E disse que não. E separaram-se para nunca mais se verem.
Enquanto chora em silêncio, Lurdes lembra-se da carta que enviou a Zé, logo após esse último encontro. Desse sim, que atravessou o mar, nasceu o seu casamento, este beco escuro onde vive. Pobre Maria de Lurdes. O que uma fraca imaginação pode negar à vida...

Porque não sou herói bíblico (Mateus 26:26-29)

by N

Não reparto poesia Por ninguém
digo este é o meu Corpo
inacreditável sombra aos Pedaços
caídos em leituras que Não ouvem
o gemido de uma aliança traída

Porque não sou herói bíblico(Genesis 8:20-22 e 9:20-21)

by N

As palavras vistas Molhadas
dentro do vidro grosso da garrafa.

É uma vida Numa folha de papel
escrevo na bebida que Adivinho santa
a oração ineficaz Só de ida
numa viagem sem holocaustos possiveis

A morte de um mulherengo, parte 5

7.11.2003 by alberto cinza

Deixei uma mulher à espera
Deixei, certa vez, uma mulher à espera. Deixei-a à espera num restaurante polinésio, perdida entre rostos outros, enquanto também eu me perdia entre braços outros.
Abandonei esses braços para me juntar à mulher que me esperava – já não no restaurante mas numa festa na casa de alguém, uma casa algures numa cidade que era Barcelona; não esqueço nunca, por muitas coisas que esqueça, o nome das cidades. Atravessei as Ramblas em sobressalto, não pelo que me esperava mas pelo que tinha acabado de deixar. Segui com os olhos outros corpos enquanto caminhava, desejando-os, fazendo-me desejar também por alguns desses corpos – essas noites eram de confiança absoluta -, da maneira como sempre se passou e sempre se passará. E é essa a forma como tem de ser.
Susana – era esse o nome dela; muito me espanta que o recorde ainda, tão entrado em anos, mas associo-a sempre ao título de um filme, Susana, una mujer sin amor; hoje, privado de outros luxos, dou-me a este, o cinismo – esperava-me, a meio da sala, um copo na mão, cortejada por dois outros homens, aborrecida. Cruzei a sala com passos largos e decididos e arrebatei-a de debaixo dos olhos deles. Sem uma explicação – para eles ou para ela –, puxei-a pela mão, para mim. Os meus lábios encontraram-lhe o pescoço mas não o beijei. O seu corpo encontrou o meu – moldou-se ao meu – mas nada se seguiu daí. Não a beijei, não a beijei. Limitei-me a olhá-la e ela olhou-me, não se preocupando em limpar a mão que se molhara quando a puxei para mim e o líquido do seu copo se entornou. Olhou-me com indisfarçada curiosidade mas não me perguntou onde estivera ou porque demorara tanto. Não me pediu explicações e também essa é a maneira como deve ser – acaso lhe faria eu essas perguntas se a situação se invertesse? mas tê-la-ia eu esperado de forma tão estóica, aborrecido com a corte de duas mulheres mais belas do que ela, tal como aqueles dois homens eram, cada um deles, mais belo do que eu? mais belos seriam mas esses eram dias de confiança e não, não a teria esperado dessa forma.

O que aconteceu aos teus olhos, meu querido?, perguntou-me, vendo a maneira como a observava. Por onde andam hoje os teus olhos, tão ausentes, quando costumavam pousar-se só sobre mim?, e esta frase ela não a proferiu mas era este o significado daquela que lhe ouvi. O que aconteceu aos meus olhos..., disse-lhe eu, não dizendo o que se segue – mas fazendo com que ela o entendesse -, aconteceu à tua beleza. O que aconteceu aos meus olhos aconteceu também à tua beleza. Cansaram-se de te olhar e não descobrir nada de novo. Esgotaram-se em ti e a tua beleza esgotou-se nos meus olhos. Foi isso que aconteceu aos meus olhos. Mas isso não me impedirá de voltar a puxar-te para mim – ainda que o faça com tanta força que o copo te escorregue dos dedos e se quebre junto aos nossos pés e que o estrondo atraia sobre nós os olhos de todos os outros – e de te levar por um longo corredor que desemboca, como todos – ou assim nos parece –, num quarto. E mesmo sentindo sobre mim, sobre nós, os olhos de todos, o que me impedirá de puxar-te para esse quarto que nos espera como uma inevitabilidade – como todos eles -, esse quarto de alguém que não conheço mas que servirá para o que há a fazer? E ainda que o que viste nos meus olhos seja o que vi na tua beleza e que os meus dedos se esqueçam já do contorno dos teus seios e recordem vivamente o contorno de outros seios que, pela novidade, eclipsaram totalmente os teus, mesmo que destinados a serem apagados das minhas mãos por outros mais novos, com um peso desconhecido a que é forçoso que me habitue, não é sobre esses seios que acabam por encontrar-se as minhas mãos? Como se fosse inevitável.
Tudo no amor é inevitável, mesmo a triste sequência de despedida a que nos prestámos nesse quarto desconhecido, mas nada é inesperado. Não é inesperadamente que surjo perante ti ainda com o cheiro de outro corpo sobre o meu. E se o bom Deus nos fez animais de hábitos e nos concedeu o dom da memória para que nos recordemos desses hábitos haverá ainda algo entre um homem e uma mulher que possa surpreender-nos?
Caímos então sobre os lençois, como mortos, dois corpos mortos, afadigando-se num exercicio que conhecem demasiado bem. Fodemos como cães, mecanicamente, as mesmas fronteiras de sempre, os mesmos gestos, as mesmas carícias nas mesmas partes do corpo, o mesmo entusiasmo – nem mais nem menos -, a mesma pressão empregue em cada gesto, a palma da tua mão sobre a minha nádega como sempre – nunca a mão direita sobre a nádega esquerda; sempre o contrário, ou seja, sempre o mesmo -, os mesmos beijos furiosos que arranquei aos teus lábios e depois a queda e a mesma exaustão.
Mas quando nos erguemos éramos livres como a água que corre e isso, apesar de esperado, é bom. Não?

A Mãe e o Homem

7.09.2003 by A. Évora Souto

No julgamento, a Mãe exalta-se, perde o controlo, explode. Afasta a cancela que a prende no cubículo onde depõe e, num salto, precipita a corrida. A face molhada de raiva, o grito rouco, as mãos crispadas. O Homem, para quem conseguiu finalmente olhar depois de dez minutos de palavras contidas, está quase ali. O monstro. O sádico. E ela fita-o, tão perto, e não vê mais nada, e quer chegar, ao assassino que lhe roubou o filho, que o mutilou sem piedade. Os olhos frios, onde não há sombra de remorso, provocam, espicaçam, exigem resposta. E ela vai. Descontrolada. Como louca. Apenas Mãe.
O primeiro passo é rápido. O segundo, sem hesitar. E ao terceiro, a mão de um guarda aperta-lhe o braço, desequilibra-a, não a deixa correr, e já outro guarda lhe puxa pelo ombro, e mais três, com o corpo, resguardam o criminoso, e a Mãe, imobilizada, a metro e meio de conseguir, esperneia, e grita insultos, e cerra os punhos, e desaba em lágrimas, impotente, vencida. Quer o filho de volta. Quer rebentar com o mundo que não o soube defender. Quer castigar. O Homem olha-a sem espanto, seguro, escudado na barreira humana que o protege.
Do alto da tribuna o juiz inquieta-se. A desordem não é tolerável e a cena perturba-o. Há uma picada na alma. Um mal-estar em forma de pergunta: Quem segurou o punho do Homem enquanto massacrava? Quem protegeu vítima do carrasco brutal? O martelo estala: “vamos fazer um intervalo de meia hora para serenar os ânimos”. E o meritíssimo desce os degraus, e a Mãe chora, o rosto escondido nas mãos, e o Homem espera, indiferente, o fim da sessão.
Num dos cantos sala, no seu pedestal de mármore branco, a Justiça dormita tranquila, protegida dos olhares indiscretos pela grossa venda de pedra.

A morte de um mulherengo, parte 4

7.06.2003 by alberto cinza

Memórias
Demorei duas horas a arranjar-me nessa noite. A minha mãe puxou um banco para junto da porta da casa de banho e, sem qualquer espécie de ruído, deixou-se ficar ali sentada durante todo o tempo que demorei. Esteve sentada à porta enquanto eu tomava banho, um banho mais longo do que era normal, lavando demoradamente o cabelo, esfregando escrupulosamente as axilas, ouviu-me sair do banho e, de toalha enrolada à volta da cintura, cantarolar baixinho Jezebel – a minha mãe gostava de Frankie Laine; em parte, talvez seja culpa dela se os meus gostos tendem para o melodramático – enquanto me barbeava com mais cuidado do que justificavam os poucos pêlos que então tinha – a minha barba sempre foi rala e ainda mais nessa altura, mal saído da adolescência –, perfumar-me, clandestinamente, com o after-shave do meu pai, com a sua água de colónia – alguns pingos furtivos caíram sobre a alcatifa; limpei-os com o meu pé nu, um hábito que ainda hoje mantenho; tantas coisas crescem em nós nessa altura em que, pela primeira vez, nos preparamos para enfrentar o mundo completamente sozinhos; tantas coisas, algumas grandiosas, outras apenas mesquinhas, como esse hábito inconsciente de limpar pingos de água de colónia da carpete com um movimento rápido do pé nu – e, mirando-me um última vez ao espelho, o cabelo puxado para trás, um sorriso de juvenil invencibilidade caindo-me suavemente sobre os lábios, vestir o roupão e sair, ouvindo, lá fora, a minha mãe, os seus passos rápidos, os chinelos que deslizavam, levando o banco de volta para a cozinha. E, enquanto eu me vestia, fechado no quarto (cuecas, meias, calças, cinto, camisa, colete, casaco), a impaciência do meu pai tornando-se manifesta através do som dos seus passos, imperiosos, ao longo do corredor, as frases mais sopradas do que ditas – parece uma mulher este rapaz; não vamos chegar a horas. E a minha mãe – suponho-o apenas, pois que não o vi; sei apenas que era assim que ela costumava fazê-lo – pendurando-se nele, apaziguando-o, passando-lhe os dedos pelo cabelo, ajeitando-lhe o cabelo que, ao contrário de mim, usava com risco ao lado.
E quando finalmente saí do quarto, rescendendo à água de colónia do meu pai e ao seu after-shave, beijei a minha mãe e desci atrás do meu pai, o último trunfo esperava ainda para ser jogado, longe de olhares familiares. No bolso do colete, bem enfiado no fundo do bolso, levava a cruz de ferro do meu pai, essa mesma cruz que ele se gabava de ter arrancado do peito de um tenente alemão. E essa cruz, que ele usara durante toda a guerra como amuleto e que eu, nessa mesma manhã, tirara da gaveta onde ele pensava tê-la escondida, seria, também para mim, o amuleto de que necessitava para me dar aquela última e vertiginosa dose de coragem. Talvez o amuleto que me traria incólume da batalha que me preparava para travar. E essa batalha, essa batalha na qual fervia já por envolver-me, tinha um nome e esse nome era Laura.

Laura – que os meus olhos começaram imediatamente a procurar quando o meu pai me deixou à porta do baile e entrei, acompanhado por alguns dos meus amigos – era alta e loura, tão teutónica na aparência como essa cruz que, para espanto e inveja dos meus amigos, coloquei na lapela enquanto ainda subíamos as escadas, enquanto lá atrás o meu pai se preparava ainda para arrancar, tão inacessível – ou assim parecia – como a cruz de ferro do meu pai – ou assim ele o julgava. E quando entrámos, o estrépito habitual dos pequenos animais famintos que éramos precedendo os nossos passos, foi ela a primeira que vi e foi a ela que primeiro me dirigi, ignorando ostensivamente uma ou outra mão que se esticava na minha direcção, um ou outro par de olhos que se voltava para me ver passar. Portanto, foi ela a primeira que vi e, separando-me da matilha, foi a ela que me encaminhei. Postei-me à sua frente – era uns bons dois palmos mais alta do que eu - e olhando-a nos olhos, alheio a todos aqueles que a rodeavam, convidei-a para dançar. E ela, suponho que agradada com o tom inquestionável que dera ao pedido, e que quase o transformara numa ordem, agradada talvez com a falta de deferência com que eu a tratava – quando todos os outros abusavam dessa mesma deferência quando se lhe dirigiam -, tomou a mão que eu lhe estendia e seguiu-me para a pista de dança, o seu vestido branco esvoaçando atrás do meu fato verde, um pouco largo nos ombros, os seus cabelos louros presos num carrapito seguindo os meus cabelos negros de corvo, a sua mão esguia entrelaçando-se na minha mão de dedos pequenos e roliços. Dançámos – e como dançámos! – e os seus olhos tombaram sobre os meus, pretendendo talvez advertir-me de que era já pouco o tempo que nos restava para que nos apaixonássemos, que era já pouco o tempo para que, nas suas costas, a minha mão ousasse mais do que seria de esperar numa primeira dança, para que os meus dedos procurassem, através do fino tecido, perceber a geografia do corpo dela, que era já pouco o tempo para que a minha fome fosse aplacada, a nossa fome aplacando-se no espaço de uma dança, os lábios chegando porventura a colar-se num único beijo, os seus olhos pousando sobre os meus garantindo-me que havia nela muitas partes que me seria possível tocar, que me seria possível escolher, mas que me apressasse porque era já pouco o tempo.

Avó Nena

by N

A aldeia foi despedaçada
pedra por pedra Está depois das nuvens
o jardim O teu sorriso
desvaneceu-se o cabelo alvo e O teu olhar
enterrou fundo no meu peito A canção
diz que o teu nome se alegra outra vez
explicando uma menina com uma boneca

Quando disserem este lugar
no limite da memória negarei que existe
ficou despovoado
inerte
levaste-o contigo

Amistad

by N

(Para o Jorge, Gil, Ruben e Zé)

Tento explicar A amizade
é um músculo Indefinido
olhar igual Sobre escombros
de demolições Criam-se castelos
onde não há sede Nem chagas
podem encobrir esse sol na palma Da mão
na mão nasce resistência A tempestade
vem e vai enquanto se limpam Os olhos
fixos nesse mesmo ponto quente

A morte de um mulherengo, parte 3

7.05.2003 by alberto cinza

O hotel com paredes de papel
As noites eram longas em Salamanca e as paredes do meu hotel eram finas como papel. O calor era sufocante. Os princípios de noite, passava-os à varanda do meu quarto, o cabelo molhado penteado para trás, liso.
Jantava quase sempre à janela, os olhos perdidos sobre a Plaza Mayor, sobre as mulheres que, apressadas ou vagarosas, atravessavam a praça. Essas mulheres que, perante os meus olhos perdidos e no entanto certeiros, atravessavam os anéis de fumo do cigarro que fumava à janela, nas noites quentes do Verão de Salamanca. E cada uma dessas mulheres, cada uma delas, era minha. Eram já minhas quando, caindo a noite, se apressavam para casa e, sem que o soubessem, era para mim que voltavam mais tarde, nos seus vestidinhos de Verão e sapatos de salto alto, de braços nus e finos lenços cobrindo-lhes os ombros. Era para elas que eu me vestia. Compunha o laço da gravata em frente ao espelho enquanto trauteava o La Donna é Mobile – trauteava muito nesses tempos; ajudava-me a concentrar no que havia para ser feito –, como um cavalheiro veneziano acabado de sair do La Fenice – sem dúvida, uma récita do Rigoletto – que se encaminhasse para sob a janela da sua amada, enquanto no seu cérebro rodopiavam ainda as imagens de todas as mulheres que vira e desejara – que ver é já desejar – nessa noite, pensando em todos os colos magníficos que pudera ver atentamente com os seus binóculos e que, por um momento, lhe tinham pertencido apenas a ele – que dar a ver é igual a dar-se e olhar é igual a agarrar e a possuir, ainda que por breves instantes. Trauteava portanto La Donna é Mobile, à luz suave dos candeeiros da Plaza, na semi-obscuridade do meu quarto de hotel e, de entre todas as mulheres que, durante esse período de rapina, tinham passado diante dos meus olhos – e que, consequentemente, tinham já passado um pouco pelos meus braços -, procurava o rosto mais perfeito, o caminhar mais sugestivo, a pura animalidade que, naqueles dias, era o que mais me atraía nas mulheres. E decidido o rosto que, por essa noite, seria o dos meus sonhos – ainda que raramente o reencontrasse e, resignado, passasse a noite nos braços de uma outra mulher, igualmente magnífica mas que me aborrecia por não ser exactamente aquela que eu escolhera; tão curta a vida, da arte tão longa a aprendizagem, dizia Marlowe, e demasiado escasso o tempo para o desperdiçar em perseguições inúteis, acrescento eu -, dava um último toque na gravata, passava os dedos pelo cabelo que penteara para trás e, acendendo um cigarro, descia os poucos degraus que me separavam de todas as mulheres.

Não sei o que me levou a erguer os olhos no momento exacto em que ela assomou à janela. Talvez seguisse o vôo de um dos muitos pombos que a Plaza albergava – sempre apreciei a forma como as aves ganham os céus, a forma como a gravidade se anula, como deixa de se constituir num obstáculo e se torna uma mera irrelevância; acredito que há muito para aprender no vôo das aves – ou o andar de uma qualquer mulher, afastando-se na direcção de um dos extremos da praça – tentando talvez discernir nela os traços da minha escolhida para essa noite, essa outra tão prontamente esquecida quando os meus olhos a encontraram, debruçando-se da janela, os braços apoiados, cruzando-se, sobre a balaustrada de ferro, na varanda imediatamente ao lado da minha. Hoje, já não lhe recordo o rosto, destroçado, despedaçado pelo tempo, tantos outros sobrepondo-se-lhe, e tenho pena. Tenho pena de não recordar o rosto da mulher que me ensinou a esquecer o ciúme.
Talvez tenha sido o surgimento dele que me fez voltar, extemporaneamente, contra o meu comportamento habitual, para o meu quarto. Surgiu por trás dela e enlaçou-a – o rosto dele permaneceu na obscuridade – enquanto nos fitávamos, ela e eu, por um breve instante. Eu atravessara a praça, atraído por ela, os meus olhos procurando os dela, encontrando-os por fim, pressentindo neles o brilho que procurara, sem o encontrar, em tantas outras, preparando-me já para me perder neles quando ele surgiu e, enlaçando-a pela cintura, a puxou para ele e daí para dentro, para a obscuridade. E tudo isto sem que os olhos dela se desviassem dos meus, mesmo que deixasse que outro – marido? amante? – a arrastasse para as negras trevas do esquecimento. Tudo isto sem que eu deixasse de caminhar na direcção dela, não adivinhando a aparição daquele braço que a desviaria do meu caminho.
Subi rapidamente os poucos degraus que me separavam da parede que me separava dela. Levei a chave à porta tomado por um estranho nervosismo, o nervosismo que pode prenunciar o momento em que para sempre perderemos algo que só nesse momento descobrimos que possuíamos. Não corri à varanda. Encostei-me com mil cuidados à parede que separava os dois quartos. Podia ouvi-los distintamente. A voz paciente dele e a gargalhada estranhamente familiar dela. Escutei pacientemente – o nervosismo dissipara-se já -, o ciúme evaporando-se da minha alma, um peso imenso erguendo-se de sobre as meus ombros, participando, também eu, no que ouvia. O ruído do colchão quando os dois corpos tombaram sobre ele, um golpe seco. Dois estrondos, quando os sapatos dela – suponho que os dela; desejo-o assim – caíram no chão. Senti ciúmes quando ouvi o ruído do cinto dele – acompanhando as calças – bater no chão de madeira. Mas depois, mais nada. Apenas uma imensa paz, uma estranha paz, uma paz que se confundia com ardor e que é o sexo. Como se nunca tivessem existido, os ciúmes abandonaram a minha alma e, nesse momento, eu soube que aquela mulher também era minha, que aquele homem, de alguma maneira, também era eu, que possuir não é só o momento da posse. Descobrindo finalmente a verdadeira extensão da palavra posse e aceitando-a incondicionalmente no meu coração, vendo o mundo, como se pela primeira vez, em toda a sua claridade.

Porque Não Sou Herói Bíblico (João 3:16)

7.04.2003 by N

Hoje sei que sou pó Para ti
o meu coração é Um parto falhado
de uma história triste Nesse teu amor
eu vejo que me decidiste Louco
a gritar no meio do lixo
Maldito
o ventre que te inventou tão débil

Parabéns a mim, mamã

by N

Hoje é o meu aniversário. Faço cinquenta e cinco anos. Confesso que estou bêbeda e que fumei umas coisitas que te fariam morrer de ataque de coração se soubesses. Talvez fosse melhor. Já imaginei tantas vezes a tua morte...
Tu, mãe, dormes no sofá. Já comemos o jantar e partimos o bolo. Desde sempre esta festa, só nós as duas por causa das palavras do pai a morrer naquele hospital de terror. Fez-me prometer que cuidaria de ti para sempre. E não houve nenhum homem entre mim e ti no cumprimento dessa promessa.

Nesta sala perdida do mundo, de todo o mundo em que eu poderia encontrar nestes sonhos imprecisos e desfocados que tenho tantas vezes e me fazem beber e fumar paraísos artificiais, estás tu, sentada no sofá a fazer a televisão mudar de língua e imagens muitas vezes, enquanto não ouves os meus gritos de qualquer coisa vermelho espesso ocre parecido talvez com o desespero por não ser esta a forma como quereria aproveitar a minha vida, a minha própria única vida, desta maneira de pesadelo tão normal.
Poderia-te dizer, enquanto adormeces no sofá, como acontece todos os dias, todas as noites, que nada disto tão perfeito é o meu perfeito. As torneiras que não pingam, as portas dos armários envernizadas, as máquinas do bem estar que tratam da sujidade com aprumo e rapidez, a televisão stereo e os cinquenta canais por cabo, os armários sólidos dos quartos, a electricidade e o gás, a água e os vidros duplos das janelas, a lareira, o jardim com as nossas flores, e as outras coisas que são o que sempre desejámos, cada uma para seu lado, ter. Esta estabilidade que me faz mais só do que se não vivesse contigo é uma punição, quero crer provação, de Deus. Porque não acredito no absurdo e no é assim e pronto. Assim e pronto digo-te da minha morte.
Todos morreram, afinal. Estas palavras não têm destinatário nem leitor a não ser eu, que recebo com o carinho e compaixão possíveis a minha tristeza por tudo ser um logro.
Estou cansada e tu começas por fim a ressonar. O ar que ressoa algures dentro de ti é a minha morte. Os teus gritos. A tua falta de calma. O quanto aprendi a odiar em ti, pessoa tão bela, é surpreendente.
Todos morreram, enfim. Não há mais ninguém e eu não sei o que fazer sem oasis em que sacie a minha sede. O deserto é áspero e duro e vai-me dilacerando enquanto me transformo na pedra que constrói a montanha.
Dormes no sofá em frente à televisão madrugada dentro. Eu, acordada, tento adormecer com a ajuda de um copo. Quando estivermos as duas a dormir, o tempo passará sem custar.
Todos morreram e tu és a causa do que eu sou, uma moribunda. Quando eu me deixar de ouvir, quando se esquecerem de quem eu sou, aí eu sei que estará tudo bem, pela primeira vez.
Até aí vejo-te dormir, invejando-te.
De nada se tira nada e nada há para dizer. Precisam-se ilhas neste mar absurdo de tão normal e pré preparado concentrado em que basta juntar qualquer coisa, que não água, por favor, porque há anos que vejo água por todo o lado e ela enjoa-me por tudo ser sempre tão igual, tão aquela linha a que se chama horizonte que nunca chega até mim para ver o que lá está, tão profundo que não sei o que está aqui em baixo disto em que vou flutuando, talvez monstros colossais caprichosos a olharem uma mancha escura na superfície contra o brilho do sol a pensarem neste momento, neste preciso e único decisivo maldito momento, que seria óptimo dar uma espreitadela lá a cima para ver se aquilo se come.
Porque há momentos, sabes, em que o artista muda de expressão e os cenários são outros que não tu, que não eu, à deriva neste mar nesta sala. Tu dormindo a ressonar e eu escrevendo para ninguém acerca de monstros que existem nas profundezas sabe-se lá de onde ou de quê. Dizia momentos diferentes em que já não me lembro bem o que acontece mas que me fazem sentir alegre e feliz, com vida. Se eu soubesse, se alguém soubesse, as coisas haveriam de mudar. Poderia lembrar-me, por exemplo, de como é estar apaixonada por um homem, como me aconteceu, tenho amigas que se lembram do meu comportamento e personalidade de então, quando era jovem.
Mexes-te um pouco no sofá e a televisão continua a debitar luz de muitas cores na tua cara cega de sono. Imagino o escuro dentro dos teus olhos que talvez até já sonhem.
E hoje, enquanto me começo a cansar das palavras, que não me servem de nada porque não trazem ilhas para o pé de mim, sei que estou dentro de um cofre forte blindado e anti-tudo o que possa ser imaginado de modo a que ninguém me oiça gritar daqui de dentro. Fiz a minha cama num canto e tenho um cinzeiro noutro. Num terceiro escrevo. No quarto olho-me ao espelho na vã tentativa de saber mais alguma coisa de mim.
Que alguém se decida, porque cá por mim, se ninguém o fizer, decido-me eu. E, então, o barco vai balançar e os monstros marinhos vão ver cair um pedaço de qualquer coisa parecido com gente e já não vão ter o incómodo de se deslocarem até à superfície para ver o que grita tanto.
Mas, acordas. Olhas para mim, já tão bêbeda, sem saberes sequer que esta já não sou aquela que conheces. Eu, que estou no vai não vai borda fora, já não sou esta pessoa que te fala baixinho, porque já é tarde. Eu tento dizer-te, enquanto falamos de coisas que não nos podemos esquecer de comprar amanhã na mercearia, que salva-me por favor. Falamos e estás confortável no sofá, inconsciente do meu desequilíbrio iminente em direcção ao fundo que não conheço, sabes, que nem sequer imagino como seja, mas que é um fundo, enfim, e é isso que me interessa neste momento, uma saída, seja ela qual for, para fora deste cofre e destes quatro cantos conhecidos cá de baixo porque os lá de cima não os conheço, não tenho altura envergadura estatura verticalidade suficiente para os olhar bem de perto.
Mãe, digo-te, enquanto falamos de contas por pagar do gás e de electricidade, que, afinal, a história foi sempre a mesma. A história de uma miúda, de uma adolescente, de uma jovem, de uma quase adulta e, agora, de uma adulta, cheia de cabelos brancos a comprovar. A história impossível de contar, que foi só entrevista na poesia e num ou outro olhar de um homem há muito tempo.
Há que saber parar, cair e sentir a água a entrar pelos pulmões a dentro.
Um impulso e tu ficas para trás, junto do ar, mais perto do céu azul. Entra o Bach no movimento e o Albinoni e o Barber também. Desço com os homens da minha vida. As vírgulas, deixo de me preocupar com elas, com redundâncias, metáforas gastas ou frases demasiado longas. E também com as minhas noites. E com tudo, que não é nada. E isso é tão triste, sabes?
Não sabes. Já dormes outra vez. A televisão calou-se e eu procuro a eternidade.
Por isso caio e sinto a água gelada. Primeiro de olhos fechados, depois já com eles abertos vendo os monstros, manchas de escuro mais lá em baixo. Rebento e a água entra dentro de mim fazendo-me sentir convidada a uma nova vida sem esta cabeça, sem este corpo, sem este passado, sem esta culpa. Quem saberá de que é feito a consciência de uma mulher diferente, que é o mesmo que dizer perturbada? Quem saberá indicar o caminho para a cura de doença e do seu contrário, que não tem palavra específica e que os homens, por sentirem que é tão adquirido, tão fácil, tão estupidamente acessível, nem sequer lhe deram um nome a não ser Saúde, que não é nada, que não passa da ignorância do mal, do sofrimento, da doença. Existe Jesus e o Diabo. Existe Doença e existe que porra, afinal?
Mais um cigarro, mamã querida, que as palavras não são nada.
Vejo o olho de um deles, dessas bestas marinhas que vão acompanhando a minha queda, e é curioso. Interroga alguma coisa ao ver-me assim, pedaço de gente ou de doença. Olha-me e quase quase consigo perceber compaixão.
Dizer amor é incompreensível. Dizer eu também.
Dizer Inferno. Dizer maldição. Dizer nada conta nem é real. Dizer dias a fio assim. Dizer que a culpa, a haver, é só de Deus. E não coro com o perigo de me afirmar revoltada contra Deus porque ele não existe e não se importa, por isso, resta-me ser boa, ser boa, ser boa, ser infeliz e que é isso? Nada diferente. Tenho vergonha. Só vergonha. Da poesia, das letras, dos meus actos, da minha carreira no emprego, do meu comportamento como mulher do marido que nunca tive por tua causa...
Não há um medicamento ou milagre que desperte amor, raios de sol e, talvez, arco-íris.
Meu Deus da Ausência sou-te devota e quero-me tornar santa seguindo as tuas virtudes de nada tocar, nada querer e nada importar. Tenho 55 anos e tenho 15 e tenho 20 e tenho uma semana atrás. Ó sim, tudo pior, cada vez pior!
Parabéns a mim, mamã.

Porque Não Sou Herói Bíblico (Salmo 139:1-7)

by N

Debaixo de uma sombra No Verão
um homem descansa No vinho
procura um abrigo onde não estejas

Cajó, só tu!

7.02.2003 by A. Évora Souto

G’anda maluco, Cajó! G’anda maluco!
Parece que ainda estou a ver a cena. A velha carregada com as compras da praça, tuca, tuca, tuca, a descer a calçada, olhos no chão, que o peso era muito e quanto mais depressa chegasse a casa mais depressa os braços descansavam. E tu, g’anda maluco, sempre com os radares ligados, a topares a cena, “fiquem aqui”, a atravessares a rua e a plantares-te em frente à montra da sapataria, muito interessado, como se estivesses à procura de uns sapatos novos. E a velha tuca, tuca, tuca, por ali abaixo com as compras, tu a mirares os sapatos, e ela a chegar ao pé de ti, sem desconfiar de nada, tuca, tuca, e a passar, a nuca suada ali mesmo ao jeito, e tu sacas da mãozorra e trás!, que senhor calduço!
A velha a espalmar-se no passeio, os sacos entornando as batatas, as cabeças de nabo, os carapaus para grelhar ao almoço, as cenouras, os cravos amarelos para a cómoda, e ela esticada no meio daquela balbúrdia, e tu a aproximares-te, e um rapaz com óculos e uma senhora a correrem, mas tu a chegares primeiro e a perguntar: “Atão, o qu’é que foi?” E ela ai, ai, toda a apardalada, só gemia, só gemia. E o rapaz a querer saber se tinhas visto alguma coisa, e tu a encolheres os ombros, e a senhora a dizer que era melhor chamar a ambulância, que devia ser alguma coisa de coração. E, plosht, o 32 para Caselas a esmagar o tomate que rolava rua abaixo, e tu a ajudares a levantar a velha, “o que é que aconteceu?”, “o que é que aconteceu?”, e a preparares a retirada, “estou atrasado, tenho que ir indo”, e a senhora a descansar-te que ela e o dos óculos tratavam do resto.
E depois, a velha durante três semanas fechada em casa. O filho a insistir, a insistir, que saísse, que não havia perigo. Mas nada, ninguém a convencia. As vizinhas a irem buscar-lhe as mercearias, a levantarem-lhe a reforma nos Correios, a porem-lhe os emplastros no pescoço. E ela trancada em casa, cheia de medo de pôr o nariz cá fora.
Cajó, que g’anda maluco tu me saíste! Acredita: ao pé de ti é só rir, ninguém consegue andar triste.

A morte de um mulherengo, parte 2

by alberto cinza

Tintura de iodo
Entre as pernas de uma rapariga, como o príncipe dinamarquês. Uma mulher que nos acolhe entre as suas pernas sem perturbação, sem exigências, só pode querer curar-nos. Seja da loucura – como Ofélia com o príncipe – ou, simplesmente, das outras feridas, daquelas que nem sempre nos transtornam o rosto – embora às vezes o possam fazer.
Era o Outono, claro que era. Ela chamava-se Lucia e vivia em Toledo. Eu vivia em Toledo e fazia-o sem nome, como se pretendesse, também eu, esquecer-me de que existia. Supunha que tu já o terias feito e – eu era então muito jovem – isso bastava para que também eu desejasse fazê-lo. Caminhava pelas ruas de Toledo com a gola da gabardine levantada – mas isso foi algo que também nunca chegaste a ver, a minha famosa gabardine azul; não viste também o Outono em Toledo ou, que eu o saiba, em qualquer outra cidade; retiraste-te para o campo, ouço agora dizer; certamente, cansaste-te do amor porque o amor só existe nas cidades; não me peças para te explicar -, de lábios cerrados e olhos ausentes.
Lucia não me seduziu – teria sido incapaz de o fazer. Antes me prometeu – sem quaisquer palavras – o abrigo entre as suas pernas – mais do que entre os seus braços – como a cura de que eu precisava. Não a seduzi. Não teria sabido como fazê-lo. Perdia os dias a aperfeiçoar a arte da saudade – essa arte que me disseste estar morta; mas isso foi depois, mais tarde -, de rosto ao vento, julgando-me numa cidade outra – mas não há nunca outra cidade que não seja a cidade em que primeiro nos deixamos ferir, ainda que seja essa a última vez, ainda que também isso faça parte da aprendizagem.
Unimo-nos, portanto, por necessidade – não preciso de te explicar as necessidades de que padecia nesses dias; explicar-te-ei, porque me apetece, as necessidades de Lucia – e esse princípio era também já o fim.
Lucia pretendeu curar-me de ti – ainda que não tivesse ouvido nunca o teu nome, ainda que nem por uma vez eu me tenha referido a ti -, sobrepor o seu rosto ao teu, substituir – quem sabe se superar – o teu corpo pelo dela, o teu amor ausente pela sua cura. Mas o amor não é uma cura. Nunca poderá sê-lo. Não faz parte da sua natureza ser apaziguador. Mas quem o diria a Lucia? Quem mo diria? Éramos ambos muito jovens.
Aprendi com Lucia a rejeitar as mulheres que pretendem curar. Que pretendem apenas curar, para ser mais exacto. E são essas mulheres, as que pretendem apenas curar os homens a quem se prendem, que pretendem apaziguá-los e dar-lhe paz – essa paz que não existe -, que pretendem dessa forma prendê-los a elas para que também eles as curem de algo que elas não sabem nomear e que se chama solidão. Essas mulheres estóicas que seriam incapazes de ferir especializam-se, ao invés, no envenenamento. Não creio que elas próprias o saibam. É – e já sei que condenarás a minha propensão para a metáfora -, no fundo, como a tintura de iodo: em pequenas doses é essencial ao organismo mas a absorção em excesso provoca um envenenamento – a esse fenómeno chama-se iodismo. É essa gestão desastrosa, desproporcionada, que provoca o cansaço. Mas que culpa teve Lucia? Ora, que culpa tenho eu?
Compreenderemos sempre melhor a angústia que nos causa o que perdemos num desastre do que a vaga tristeza daquilo de que, naturalmente, nos cansamos e de que decidimos afastar-nos. Porque é do cansaço que nos afastamos. É isso que o envenenamento provoca. Cansaço, entorpecimento. Compreendemos melhor o desastre, o acidente de percurso, do que compreendemos o próprio percurso. E assim o cansaço apodera-se do nosso corpo, levantamo-nos de manhã e sentimo-nos cansados, completamente exaustos. E permanecemos assim ao longo do dia, ao longo dos dias – elas, as mulheres como Lucia, dirão que é natural, que é natural que nos sintamos perdidos e cansados, que tudo isso faz parte da cura e procuram atrair-nos de novo para entre as suas pernas, para esse refúgio. Começamos, por essa altura, a interrogar-nos sobre o nome daquele a quem o refúgio, efectivamente, se destina e depois, um dia, arrancamo-nos violentamente ao sítio onde estamos – na verdade, com mais violência do que a que seria necessária – e queremos ser felizes. Dura pouco. Depois, reabrem-se as feridas e sentimos falta, uma imensa falta. E também isso dura pouco. Finalmente, decidimos infligir aos outros...
Estou cansado.
Estás cansada?
Pede-me para parar.
Paro.
Vou parar.
Já parei.

Inconfirmável

7.01.2003 by N

O momento foi só um
as mortes sucedem-se
são portas que vão sendo fechadas
trancadas
e chaves perdidas para sempre

Ao surgir a paixão
a promessa é entrevista
a alegria de portas abertas
num rio navegável.

Como se houvesse alguém
capaz e ousado
mínimo e de tanto valor
que deslizasse para dentro de mim
por esse rio gigante
reparando albufeiras
suavizando correntes fortes
construindo pontes
evitando cheias demolidoras
e que ao deparar com portas trancadas
imensas e espessas
encontrasse chaves no fundo lodoso a que não chego.

Depois da paixão mais uma morte
o acabar num momento
com estrondo brutal de madeira e aço
confirmando ser
impossível de confirmar
existir esse alguém assim capaz.












Instrução para uso dos dias

by N

Instruções para uso dos dias

Na mesa os copos meios e os pratos usados,
a fruta tocada a acastanhar.
Na luz branca os livros para ler,
as folhas escritas de teimosia e um cinzeiro.

Quanto às fobias e aos medos,
convém mexer, analisar
e engoli-los de um trago,
mesmo que a garganta sangre.

A morte de um mulherengo, parte 1 (a partir do disco homónimo de Leonard Cohen)

6.30.2003 by alberto cinza

O verdadeiro amor não deixa marcas
Regressei hoje a Bilbao, à cidade onde nada me recorda de ti, a esta cidade cujas ruas nunca percorreste, onde sou livre de desejar qualquer mulher que me agrade sem que possa incorrer no erro ético de a desejar no mesmo local onde outrora te desejei. Não sou um cavalheiro mas sei uma ou duas coisas da ética da profissão. Não é o amor uma profissão? Haverá outra?
Sou ocioso. Sou-o ainda mais em Bilbao. Os negócios correm bem – nunca o salão de beleza teve tanta gente; atrai-as o vago odor de escândalo que me rodeia -, as mulheres passam pelos meus braços sem deixar marcas – como profetizaste que haveria de acontecer; não sei sequer porque te escrevo como se estivesses ainda presente, como se pudesses voltar a estar presente; sei que te terei junto ao meu leito de morte, ou que tu me terás junto ao teu, porque certos laços são indissoluveis -, sem cicatrizes. E será ainda isso o amor, o verdadeiro amor, o tal que não deixa marcas? Ou será apenas o que se passa nas costas do amor, aquelas ninharias a que ele não alude, bagatelas?
O amor é essa contabilidade de cicatrizes e carícias que se desvanecem com o tempo ou que são apagadas por outras, que se vêm sobrepor a essas. Não pode nunca ser outra coisa. O amor sem as cicatrizes é como o cristianismo sem o peso da cruz, como o cordeiro sem a faca, uma ilusão filosófica. Tudo aquilo que nos quebra – bem como o que nos ergue acima dos outros – é indispensável. A euforia e a dor não são coisas que se possam encarar de forma displicente. E no entanto, no entanto deixo-as para trás das costas e percorro sozinho as ruas de Bilbao, os meus olhos fixando-se nos olhos das mulheres com quem me cruzo, não as desejando verdadeiramente mas não sabendo ser de outra maneira. Desço as ruas até ao rio, essas ruas que me separam da minha cela – a minha casa austera, de paredes nuas e janelas pequenas – e me aproximam do salão onde exerço a minha profissão, atravesso a ponte sem olhar em volta, os olhos no chão, erguendo-se de súbito ao menor sinal de presença feminina, fixando-se sobre essa presença – essas presenças fantasmagóricas que vêm e vão, que aparecem e desaparecem como as ilusões com que, durante anos, nos alimentámos e que descobrimos depois serem impossíveis de levar a cabo; tu sonhavas com casa cheias de crianças e vivias no seu contrário; eu sonhava com casas cheias de mulheres e vivo no seu contrário – tentando, mais do que fixá-la, que ela me fixe. Tentando, portanto, despertar-lhe a curiosidade, fazer com que me siga se eu assim lho pedir, fazer com que engrosse as fileiras das mulheres que deixarei irremediavelmente para trás, sem que quaisquer traços sobrem delas para dar testemunho da sua passagem pela minha terra, porque foi assim que me convenci – quando partiste, quando os teus traços se apagaram no caminho, como o vento apaga as pegadas na areia e impede que qualquer caminho se fixe, que qualquer coisa subsista dessa breve passagem – que deveria ser. Sou um amante inventário, um mentiroso ingénuo, um sedutor renitente, um entusiasta do amor, um coleccionador com problemas de memória, um terreno bravio, uma folha em branco, uma casa com demasiadas portas fechadas, uma casa demasiado grande apenas para um. Sou todas essas coisas e mais algumas ainda.
Portanto, vivo essa estranha existência monástica, a minha solidão povoada por tantas mulheres, por tantos corpos e rostos de mulher, dando-me a todas elas, impedindo-as de se me darem na medida exacta das suas possibilidades, deixando apenas que de mim levem o que lhes for essencial: um nome (falso), um telefone (falso), uma história (tantas e todas tão falsas), o meu cabelo penteado para trás que começa a encanecer, as minhas camisas brancas e o meu tabaco negro, os quartos de hotel em que nos deitamos, o peso do meu corpo sobre o corpo delas, talvez uma ou outra refeição, um banco de jardim e uma volta num carrocel (tudo verdade), um carrocel enferrujado onde o tempo já fez o seu trabalho, esse trabalho que não há já quem consiga desfazer, esse mesmo trabalho que o amor – segundo dizes – não faz sobre nós, a tinta estalada, o metal que empobrece e cede, as roldanas que envelhecem e chiam a cada nova volta, os varões gastos por tantas mãos, o meu corpo gasto por tantas mãos.
E, ainda assim, compreendo como tinhas razão quando disseste que o verdadeiro amor é aquele que não deixa traços e disseste que o que havia entre nós não haveria de subsistir, que os nossos abraços não haveriam de se perpetuar, que os meus olhos não mais se demorariam nos teus, que todos esses gestos eram já setas sem alvo, olhares através de janelas empoeiradas sobre paisagens que já não existem. E mesmo sabendo isso tudo – sabendo-o racionalmente que, como sabes, é apenas uma das maneiras de saber – o que me garante que sejam o meu corpo ou a minha memória – onde todos esses gestos encontram ainda correspondência, onde são ainda reais – que estão errados? Quem pode garantir-me que não mentias?

Fernando

6.29.2003 by N

Fernando, dos olhos suaves e meigos. Fernando, de cigarro sempre aceso entre os dedos, fechado num livro ou em folhas de papel a serem escritas. Fernando, de mão na testa calva, franzida de leitura.
Fernando, o sino toca o meio dia e sei que vais entrar neste café. Vais sentar-te à mesa que fica no canto oposto a este onde estou, para almoçares, como sempre fazes, semana após semana, desde há um ano para cá.
Quantas vezes, durante estes meses, quis ir sentar-me diante de ti? Perguntava-me
‘E porque não?’
para logo depois me perguntar porque é que fazia essa pergunta. Depois pegava num cigarro, acendia-o, e voltava ao livro, abafando esta atracção por ti.
Foi pelos livros, sabes? Não consigo enfrentar o tempo livre sem ter algo para ler. E, apesar de nunca te ter perguntado, de nunca sequer termos falado um com o outro, eu sei que é isso que se passa em ti também: quando entras, olho para a tua mão esquerda, tentando decifrar o que trazes contigo para leres. Sei que fazes o mesmo comigo, ainda antes de te sentar. Olhas para as minhas mãos, identificas o que leio e, só depois, te sentas. Com o tempo, para facilitar, ganhei o hábito de levantar o livro quando surges à porta para que possas ver a capa. Às vezes sorris, outras fazes cara de estranheza.
Mas foi com essa escrita que nunca decifrei, Fernando, que me cativaste. Com esses papéis com que pareces lutar, concentrado, riscando para logo começares a escrever outra vez. Às vezes esse teu transe é interrompido. Acontece depois de leres o que escreveste. Deixas-te ficar a olhar para a rua, a fumar. Adivinho as palavras a dançarem na tua cabeça e tu a pegares numa e noutra, modificando ordens de frases, procurando. Sim, parece-me que é isso: tu estás sempre à procura.
Uma vez perguntei à empregada se ela sabia o que escrevias. Ela disse-me que eram poemas. Estive quase a perguntar-lhe se sabia quem eras, mas ela respondeu-me antes de lhe fazer a pergunta
- Não sei o que faz na vida. Mas parece-me boa pessoa.
e piscou-me o olho, a sorrir. Eu fiquei vermelha e ela disse
- Vá, não fique envergonhada. Acha que eu não ia reparar? A minha vida, querida, é ver-vos a todos, e não são só vocês os dois que passam por aqui todos os dias, sabe? Adultério, divórcio, negócios...este é o lugar onde as pessoas tratam dos seus assuntos.
Dois dias depois, quando me sentava, veio ao pé de mim e disse-me, sussurrando
- É informático e chama-se Miguel.
ao que eu achei que não servia e que serias Fernando. E informático é igualmente impossível. És um homem recatado, metódico, talvez um guarda-livros.
Entras, finalmente.
Pedes só um café. Olhas-me e sorris. Depois, levantas-te e diriges-te a mim. Apoias as mãos na mesa e dizes, com cara zangada
- Minha senhora, os seus telefonemas têm de parar. Tenho dois filhos pequenos que precisam de descansar. Além disso, eu e a minha mulher trabalhamos muito e o telefone a meio da noite é terrível, entende?
Reparo que hoje não trazes nenhum livro na mão. O teu cabelo cai-te pela testa, quando ontem, quando saí daqui, era tão escasso. Fernando, meu pobre Fernando, que foi que te fizeram?
Quase me fazes chorar.
Dizes ainda
- E quantas vezes é que eu tenho de ter esta conversa consigo?
e, virando-se para o balcão, diz
- Zé, já somos amigos há muitos anos, mas ou é ela ou sou eu.
ao que o Zé, olhando para mim, diz
- Mamã, vá lá para casa. Uma senhora da sua idade, com os seus problemas de saúde, o que fazia melhor era deixar-se ficar lá pelo seu cantinho e descansar. A sua cabeça já não é o que era.
e, depois, ajuda-me a levantar.
Enquanto eu saio do café, diz para o Fernando
- Ó Miguel, como se já não fosse difícil gerir isto sozinho...nunca pude ter empregadas, acreditas? A velha já não está boa da cabeça. Ela antes ainda ficava em casa a ler e a ver televisão, mas, desde que os diabetes atacaram...prometo-te que não vai telefonar mais.